O progresso realizado em astronomia, física, química, medicina, balística ou medição de provas desportivas tem sido companheiro perene dos progressos conseguidos em relojoaria, e vice-versa. A necessidade de medição de tempos curtos levou ao cronógrafo, a mais popular das “complicações”.

Os cronógrafos estão para os relógios simples como os carros para as carrinhas – estas últimas melhoram sempre o aspecto estético de um qualquer modelo. Desde há uns anos que, devido a esse apelo estético do cronógrafo, com botões e mostradores suplementares, as marcas de moda resolveram “vestir” relógios simples sob a capa de “cronógrafos”.

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Tendo começado como uma verdadeira necessidade, no campo da ciência, da guerra ou do desporto, o cronógrafo passou a ser antes sinal de estatuto e complexidade da máquina que trazemos no pulso. Há quanto tempo não acciona a função de cronógrafo? Mas vamos por partes. Ou antes, comecemos pelo início…

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Até há pouco tempo, pensava-se que tinha sido o francês Nicolas Mathieu Rieussec a inventar o cronógrafo, em 1821. Mas sabe-se hoje que terá sido o seu compatriota Louis Moinet a registar, em 1816, um “compteur de tierces” capaz de medir e registar tempos intermédios.

De qualquer modo, atribui-se a Rieussec o termo “cronógrafo”, literalmente “escrever o tempo”, nome que deu a uma máquina que, munida de aparo e tinta, ia inscrevendo num disco com uma escala de 60, através do ponteiro dos segundos, os tempos feitos pelos vários cavalos numa prova no Champ-de-Mars, em Paris, para satisfação do Rei… É o primeiro caso de cronometragem desportiva que se conhece. Rieussec conseguiu a divisão até um quarto de segundo. Chega-se ao quinto de segundo apenas em 1862 – aquando dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna.

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Data de 1882 o cronógrafo “à rattrapante” (dois ponteiros dos segundos, coaxiais, podendo um ser parado para medir um primeiro tempo e reactivado para se juntar (rattrapé) ao segundo que continua a andar.

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Desporto, ciência e guerra são áreas onde os cronógrafos são necessários. Os “cronómetros desportivos”, com precisão até um décimo de segundo aparecem no final do século XIX. A artilharia pesada usa já por essa altura cronógrafos para o cálculo do tiro. Os observatórios astronómicos e laboratórios científicos passam a usar cronógrafos para os seus cálculos.

Só em 1927, com um modelo Patek Philippe, surge um cronógrafo de pulso. Trata-se de um exemplar mono-botão, accionado através da coroa.

Pela mesma época, a Breitling inventa o botão de cronógrafo independente, que acciona e para a função de cronógrafo e, em 1932, a mesma manufactura apresenta um segundo botão, que serve para colocar “a zeros” os vários ponteiros.

Só em 1969 surge o cronógrafo automático, com o Zenith El Primero a destacar-se, permitindo medir fracções de 1/10 de segundo.

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Embora as tecnologias de concepção e produção dos cronógrafos sejam conhecidas do sector relojoeiro helvético desde o início do século XIX (e falamos aqui, obviamente, de relógios de bolso), a sua produção é extremamente limitada, até aos anos 1890. É no período entre as duas Grandes Guerras que os cronógrafos (cada vez mais os de pulso, ganhando terreno aos de bolso) começam a ganhar importância, cada vez maior, até atingir o auge, em meados dos anos 1970. Os números de produção – 140 mil unidades em 1935; 1,4 milhões em 1950; 3,2 milhões em 1959…

Este crescimento tem por base uma consolidação industrial – em 1932, a Societé suisse pour l’industrie horlogère (SSIH) compra a Lemania-Lugrin, permitindo à Omega adquirir as competências em matéria de desenvolvimento de relógios de pulso cronógrafos e de se empenhar activamente na cronometragem desportiva a partir dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1932. Antes da II Guerra Mundial, também a Longines e a Heuer entram em força na cronometragem de competições desportivas.

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Nos anos 1960 entra na corrida a japonesa Seiko, que tinha conseguido ser o cronometrista oficial dos Jogos Olímpicos de Tóquio, de 1964. Em resposta, a Omega e a Longines criam em 1972, com o apoio da Fédération de l’industrie horlogère suisse, a Société suisse de chronométrage sportif, que pouco depois muda o nome para Swiss Timing. A Heuer-Leónidas (fusão ocorrida em 1964) torna-se também pouco depois accionista da empresa.

Para além do crescimento na produção de cronógrafos a que se assiste desde os anos 1930, há paralelamente a passagem do relógio de bolso para o relógio de pulso. Não são os novos usos sociais que fazem aumentar a procura de cronógrafos mas sim o aparecimento de uma dimensão ostentatória que faz do relógio de pulso e das suas complicações um acessório de moda. Os cronógrafos não servem tanto para medir tempos intermédios, mas mais para dar corpo aos valores de precisão e de qualidade veiculados pela publicidade das respectivas marcas.

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É neste contexto que a Omega surge com o cronógrafo Speedmaster (1957) e que a Zenith lança o El Primero em 1969. Um gigante, a Ebauches SA, desenvolve nesse período calibres cronógrafos que irão equipar centenas de milhares de relógios de pulso e que se tornarão famosos entre os entendidos, como é caso do Vajoux 7750 (saído em 1973).