À medida que se vai perdendo a ligação primordial que une as pessoas à natureza tendemos a procurar novas formas de nos relacionarmos com ela. Trazer o mundo natural para dentro dos ambientes construídos é possível graças ao design biofílico, mas o conceito tem um sentido bem mais amplo. Além de restabelecer uma relação essencial, deve replicar os seus benefícios físicos e emocionais, criando espaços inspiradores e saudáveis que expressem o nosso amor pela natureza.

Todo o ser humano tem uma necessidade fundamental de se conectar com a natureza. Por mais espiritual que esta afirmação possa parecer, é um facto comprovado pela ciência. Isto explica porque recarregamos energias ao caminhar pela floresta, porque gostamos de sentir o sol na nossa pele, porque temos uma sensação única de serenidade quando assistimos ao pôr do sol ou quando contemplamos o mar. Não são apenas os cientistas que o dizem, pois já é do senso comum que a natureza alivia o stress, ajuda as pessoas a pensar com mais clareza e de forma positiva, suscita a criatividade e promove o bem-estar.

CASA ATIBAIA, São Paulo

Contudo, durante anos as pessoas distanciaram-se da natureza e da vida ao ar livre, à medida que se foram enclausurando entre quatro paredes em grandes cidades, presas aos smartphones onde o mundo desliza sob os seus dedos a uma velocidade vertiginosa. Esta mentalidade está a mudar e não foi apenas porque a pandemia de COVID-19 nos mostrou da forma mais impiedosa e impetuosa que a necessidade inata e genética (de acordo com os cientistas) de nos ligarmos ao exterior, de socializarmos e de nos reconectarmos com as nossas origens, continua bem presente em todos nós. Os estudiosos deste tema revelam, inclusivamente, um dado interessante e curioso: o nosso ADN, mesmo nas gerações nascidas na era digital, não conseguiu ainda adaptar-se à velocidade da mudança e às novas formas de vida. Razão pela qual, cada vez mais pessoas sofrem de stress e esgotamento.

CASA ATIBAIA, São Paulo

Mas se o nosso estilo de vida urbano não nos deixa tempo suficiente para usufruirmos da natureza como podemos trazê-la para dentro das nossas casas ou do local de trabalho? A resposta está no design biofílico, através do qual arquitetos e designers de interiores incorporam elementos do mundo natural em ambientes construídos, transformando-os em lugares inspiradores e revigorantes onde as pessoas redescobrem a sua essência.

 

Em harmonia com o mundo natural

Traduzido literalmente do grego antigo, o termo biofilia significa “o amor pela vida” e foi introduzido pelo psicanalista Erich Fromm, que  o define como “o  amor apaixonante pela vida e por tudo o que está vivo … seja uma pessoa, uma planta, uma ideia ou um grupo social” (1973, “The anatomy of human destructiveness”).

JEWEL CHANGI, Singapura

Expresso desta forma, fica evidente que os princípios do design biofílico não se resumem ao uso de plantas.  O conceito implica uma experiência multissensorial da natureza através do uso adequado da luz, água, ar, vegetação, texturas, padrões, materiais ou formas que reproduzam os benefícios emocionais que as pessoas extraem da natureza.

O design biofílico manifesta-se em soluções que mimetizam a natureza de múltiplas maneiras e a sua aplicação deve ter um propósito no espaço e um significado para quem o vai vivenciar. Pode inspirar através da beleza mas também pode provocar uma sensação de calma, vitalidade, felicidade, ou segurança. Ou pode aumentar os níveis de produtividade num escritório e de consumo numa loja.

No sistema de valores em que assenta a biofilia residem igualmente princípios de sustentabilidade, que envolvem, por exemplo, o uso correto de plantas nos diferentes ambientes, a utilização de materiais ecológicos e de origem sustentável ou provenientes da economia circular.

JEWEL CHANGI, Singapura

Porém, as vantagens para o ambiente vão muito mais além. Na verdade, a biofilia – e o design biofílico – promove a interação entre as pessoas e a natureza com benefícios recíprocos.  A incorporação de vegetação nos espaços urbanos purifica o ar, reduz o efeito de estufa e a poluição sonora, e mais interessante ainda, tem um impacto positivo na mudança de atitude face à preservação do meio ambiente. Se é certo que as crianças que brincam ao ar livre terão maior propensão para proteger a natureza em idade adulta, está igualmente provado que os espaços biofílicos instigam comportamentos ambientalmente mais responsáveis e conscientes nos indivíduos que os experienciam.

 

Imitar a natureza nas suas múltiplas expressões

A integração de design biofílico pode acontecer em qualquer tipo de espaço, independentemente do seu uso e da sua dimensão, como casas, escritórios, hotéis, lojas, restaurantes, museus, hospitais ou aeroportos. Apesar de mais habitual, a aplicação do conceito não é exclusivo dos interiores, já que podemos ter edifícios, bairros ou até cidades inteiras com design biofílico.

A vegetação, como paredes de jardim vertical, são dos componentes mais relevantes, pois além da beleza natural, criam uma ligação direta com a natureza, purificando o ar e restaurando a calma e a concentração. Mas o design biofílico pode também ser conseguido sem recurso ao verde. O desenho de mobiliário ou estruturas com formas e padrões biomórficos, incutem positividade e aumentam o foco.

EDIFÍCIO BOSCO VERTICALE, Milão

Já a maximização da luz natural, através de amplas janelas ou fachadas envidraçadas, não só melhora o conforto visual como diminui a fronteira entre o interior e o exterior, amplificando  a vista para a envolvente. Importante é que a iluminação acompanhe o fluxo da luz solar ao longo do dia, imitando o nosso próprio ciclo circadiano.

O termo biofilia e o design biofílico são relativamente recentes, mas os princípios deste conceito já eram usados pelas civilizações antigas na sua arquitetura, ainda que instintivamente. O uso de animais na arquitetura egípcia, os motivos florais nas colunas dos tempos gregos, as flores de lótus nos lagos da China antiga ou os jardins suspensos da Babilónia podem ser considerados exemplos de design biofílico.

A água é tão vital para a vida como para o design biofílico. Através do seu uso, os designers podem ter um papel tão importante na nossa saúde como os terapeutas, ao contribuir para reduzir a pressão arterial e a frequência cardíaca e fortalecer a memória. Ver, ouvir e tocar água invoca em nós uma sensação de tranquilidade ou vitalidade.

Tetos altos promovem o fluxo de ar, transmitindo a sensação de estarmos no exterior, e espaços que replicam a ecologia e geologia local, através da madeira ou da pedra, ganham beleza e autenticidade. Outros estímulos sensoriais, como a simulação de sons da natureza, materiais texturados ou aromas originam ambientes frescos, vivos e revigorantes.

EDIFÍCIO BOSCO VERTICALE, Milão

 

Mais do que uma tendência é um investimento

O interesse crescente pelo design biofílico não se deve apenas à necessidade instintiva de os seres humanos se ligarem à natureza. Considerado por muitos ainda um luxo, a verdade é que pode ser visto como um investimento. Estudos científicos revelam e quantificam inúmeros benefícios para a saúde física e mental, com impactos muito positivos na sociedade e na economia.

  • Aumenta a capacidade cognitiva e, quando incorporado nas escolas, pode melhorar a  aprendizagem entre 20 a 25%.
  • Em hospitais com design biofílico o tempo de recuperação dos doentes diminui 8,5% e a toma de medicação para a dor é reduzida em 22%.
  • Nos locais de trabalho a produtividade dos colaboradores melhora 8%.
  • Em ruas com vegetação, tendemos a gastar 25% mais e, em lojas com biofilia, as vendas podem aumentar até 40% .
  • Os hóspedes estão dispostos a pagar até 23% mais por uma estadia na natureza ou por um quarto com elementos biofílicos.

 

Casa Atibaia, São Paulo

Arquitetos: Charlotte Taylor e Nicholas Préaud

Localizada no rio Atibaia é uma homenagem ao modernismo brasileiro e um exemplo máximo de design biofílico. A relação do interior com a floresta e toda a envolvente inspira a sensação de se estar a viver ao ar livre. Além das fachadas integrais em vidro, toda a estrutura é construída em torno de rochas pré-existentes, que ocupam também o interior de forma funcional: algumas áreas da casa são esculpidas nessas formas, enquanto que as rochas mais pequenas atuam como elementos de mobiliário.

 

Jewel Changui, Singapura

Arquitetos: Safdie Architects

A experiência de entrar no Jewel Changi deve ser muito idêntica à de ingressar numa floresta e o propósito dos seus autores foi exatamente esse. A maior cascata interior do mundo, batizada de Rain Vortex, atinge 40 metros de altura e em seu redor foi construído o Forest Vallley, um jardim interior de cinco andares com árvores nativas da região e múltiplas atrações para os viajantes, como pontes suspensas, zonas de exploração, trilhos de caminhada e áreas para relaxar.

 

Edifício Bosco Verticale, Milão

Arquitetos: Boeri Studio

Este edifício não passa despercebido na cidade de Milão e não é só devido à sua altura. É o primeiro exemplo de floresta vertical, um conceito arquitetónico que substitui os materiais tradicionais nas superfícies por uma camada de vegetação, aumentando a biodiversidade e promovendo a formação de um ecossistema urbano, capaz de ser habitado por pássaros e insetos. O edifício é composto por duas torres que abrigam 480 árvores de porte grande e médio e outras 300 de pequeno porte, 11.000 plantas perenes e rasteiras e ainda 5.000 arbustos.