Açores, viagem ao futuro

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O primeiro arquipélago do mundo com certificado de destino turístico sustentável é português e um dos lugares mais desejados do momento, graças às suas deslumbrantes paisagens naturais. Uma reminiscência do planeta passado que nos recorda o que devemos fazer para chegar ao futuro.

Um dos destinos sensação do turismo mundial, os Açores eram até há bem pouco tempo praticamente desconhecidos, e ainda hoje são raros os afortunados que já visitaram as nove ilhas deste arquipélago no meio do Atlântico Norte. Dispersos ao longo de uma faixa com cerca de 600 quilómetros de extensão, estes pequenos pontos de terra de origem vulcânica – que alguns dizem ser o Havai da Europa – estiveram muito tempo esquecidos, o que de alguma forma terá sido uma vantagem no que diz respeito à preservação de uma multiplicidade de recursos naturais, históricos e culturais. Felizmente, o reconhecimento deste valor imenso tem levado ao desenvolvimento de políticas de sustentabilidade e à classificação de quase 25% do território açoriano como Áreas Protegidas, e criação de Parques Naturais em todas as ilhas. É também nos Açores que se encontram quatro das oito Reservas da Biosfera existentes em Portugal: Graciosa e Corvo (classificadas desde 1997), Flores (desde 2009), e a Reserva da Biosfera das Fajãs de São Jorge (desde 2016). Uma beleza que não se esgota nas paisagens terrestres, já que o mar dos Açores é considerado um dos melhores locais do mundo para a prática de mergulho. Pelas temperaturas amenas e pela boa visibilidade das águas, mas sobretudo pela variedade de paisagens e ecossistemas submarinos – mas já lá vamos.

São Miguel e a vizinha Santa Maria terão sido as primeiras a serem avistada pelos navegadores portugueses, em 1427. À semelhança das suas vizinhas, sem população nativa ou mamíferos, a maior ilha do arquipélago apresentava-se como uma terra selvagem, repleta de cascatas, pássaros e montanhas vulcânicas cobertas de um verde luxuriante. Hoje, é a sua principal porta de entrada, recebendo o maior número de visitantes, o que por vezes a coloca numa posição de maior fragilidade. Ainda assim os seus cartões de visita são imbatíveis. É o caso da Lagoa das 7 Cidades (uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal), da Lagoa do Fogo, das Furnas ou de projectos como o Santa Bárbara, um hotel que tem elevado o significado de turismo sustentável desde a sua inauguração em 2015. O primeiro eco-beach resort do arquipélago nasceu da paixão de um surfista por uma praia de areias negras, construído em total respeito com a natureza e perfeitamente enquadrado na paisagem.

A apenas 50 minutos de voo de Ponta Delgada, chega-se à ilha do Pico. De uma beleza assombrosa, feita de contrastes, símbolo da coabitação do homem com a natureza, é o destino certo para recarregar baterias, subir ao ponto mais alto de Portugal, e saborear os produtos da terra. É o caso dos vinhos do Pico, com cada vez mais destaque, uma prova que se impõe antes ou depois de visitar as vinhas da ilha implantadas em campos de lava.

Um dos maiores santuários de baleias do mundo, esta foi terra de baleação desde metade do século XVIII, com a caça ao cachalote a prosperar e alastrar a outras ilhas do arquipélago, até meados do século XX. O ponto final surge em 1986, com a proibição da caça aos cetáceos e é um exemplo de uma conversão pacífica para em observação de baleias e golfinhos, cumprindo regras de observação, respeito pelos animais e medidas de segurança.

Sem mau tempo no canal e a apenas 6 km de distância, o Faial alcança-se com facilidade (30 minutos de ferry). A mundialmente famosa Marina da Horta é destino de veleiros de todo o mundo, contrastando no colorido com a paisagem lunar do Vulcão dos Capelinhos, um dos monumentos naturais da ilha, provocado pela erupção ocorrida a 27 de Setembro de 1957. Já a silhueta montanhosa de São Jorge não deixa antever o que o espera: uma paisagem feita de fajãs, pequenas planícies que se prolongam pelo mar resultado de abatimentos de falésias, muitas das quais apenas acessíveis por trilhos pedestres, o que as tornam em locais de beleza mágica.

Na Terceira, a última das ilhas do grupo Central, destaca-se Angra do Heroísmo, a primeira cidade do país a receber a classificação de Património Mundial da UNESCO (em 1983), prova viva das boas práticas de conservação e restauro de valiosos “tesouros”, especialmente do período barroco – de que é exemplo a riquíssima Igreja de S. Gonçalo (século XVIII).

Um novo voo e o grupo Ocidental está à vista. A ilha das Flores é conhecida pela sua paisagem cinematográfica – de tantas referências feitas ao seu estilo entre o Jurássico e o Avatar –deslumbrante pela beleza das suas cascatas naturais que se precipitam sobre penhascos de um verde-esmeralda impossível e lagoas escavadas por vulcões. Uma ilha-reserva detentora das mais variadas espécies de flora endémica dos Açores, com extensos tapetes de turfeiras.

A riqueza da orla costeira das Flores justifica um prolongado passeio de barco, justificando a travessia do braço de mar que liga ao Corvo, a ilha miniatura que marca o horizonte na costa nordeste das Flores e cuja cratera central tem uma imponência surpreendente. Ambas as ilhas são dos melhores pontos dos Açores para observação de aves e um verdadeiro santuário para encontrar espécies nativas e migratórias.

Aqui, como em muitos outros pontos do arquipélago, o azul do mar é hipnotizante, no entanto é a magia do mundo subaquático que o torna verdadeiramente especial, acolhendo um oásis de biodiversidade que fascina a comunidade científica. E não será por acaso que, em 2019, a Carta Arqueológica Subaquática dos Açores foi designada pela UNESCO como um dos cinco exemplos que representam as melhores práticas para a protecção do património cultural subaquático. Mas nem tudo é azul.

Expedições recentes têm vindo a verificar que fora das reservas marinhas, as ilhas já apresentam níveis de sobre-exploração acentuados, tanto nos recifes costeiros, como no mar profundo, pelo que é urgente implementar e até alargar as áreas marinhas protegidas já previstas. Para que todo este mundo passado possa continuar a ser testemunhado pelas gerações do futuro.

A área do Lifestyle tem muito poucos segredos para Bruno Lobo, jornalista com mais de 15 anos de experiência. Da moda aos automóveis, da relojoaria à tecnologia, da gastronomia à beleza. Porque “a vida é bem mais agradável com estes pequenos grandes prazeres”. GQ e Fora de Série são duas revistas onde o seu cunho se sentiu mais forte, mas já colaborou com várias revistas nacionais e internacionais, incluindo a Turbilhão, “com enorme prazer por poder contribuir para este projecto editorial”.

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