É um vinho mítico, de referência internacional e qualidade excepcional. Para muitos, o Barca Velha é uma das bandeiras de Portugal, mas para um homem foi a concretização de um sonho, uma luta incessante para conseguir um vinho tinto numa região onde só os Porto vingavam. Fernando Nicolau de Almeida foi o seu ‘pai’, José Maria Soares Franco e Luís Sottomayor os seus ‘tios’.

O Barca Velha está nas nossas memórias ligado à imagem de grande qualidade, um vinho mítico carregado de história e de experiência, num constante desafio contra o tempo desde que há 61 anos a sua primeira colheita saía para o mundo.

Um vinho tão especial e único que em toda a sua vida só deu a conhecer 17 colheitas, decisão essa exclusivamente dependente do conhecimento, do palato e do nariz do enólogo responsável e até agora só se conhecem três.

BARCA-VELHA1Casa-Ferreirinha-Barca-Velha_2004_732Mas o Barca Velha que continua a conquistar mundos é muito mais do que isto. O seu nascimento deve-se à luta perseverante de um homem que nos anos 40 do século passado quis dar corpo a um sonho: fazer o primeiro vinho tinto de consumo no Alto Douro, assente na mesma filosofia de produção, qualidade e guarda normalmente associada aos Porto Vintage.

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Fernando Nicolau de Almeida, nascido no Porto a 3 de Janeiro de 1913, na altura director técnico da casa Ferreirinha, passava os seus dias ora metido no seu laboratório de provas em Gaia, ora calcorreando os socalcos do Meão, junto ao Douro. A Quinta do Vale Meão, perto do Pocinho (assim chamada por ficar num vale a meio de uma curva do leito do rio Douro), com 300 ha de baldios de xisto no concelho de Foz Côa, fora comprada em 1877 pela histórica D. Antónia Adelaide Ferreira (a Ferreirinha como era conhecida), iniciando-se o cultivo da vinha em 1887.

O talhão da Barca Velha, nome que lhe foi dado devido ao local onde normalmente aportava uma velha barca, preparava-se assim para entrar na história.

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Fernando Nicolau de Almeida sabia que aquela era uma zona com enorme potencial para conseguir o seu sonho. Protegida pelas montanhas do Marão que a põem a salvo dos ventos frios do Atlântico, forma-se aí um microclima onde os Invernos são muito frios e os Verões muito quentes. A sua experiência ia-lhe dizendo também que não podia contar apenas com as uvas muito maduras e de elevada concentração do Meão. Havia que equilibrá-las, afinal o grande segredo de qualquer grande vinho. Precisava, por isso, de ir procurar outras mais ácidas e menos alcoólicas o que só conseguiria nas terras mais altas e de solo granítico, para os lados da Meda.

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A pouco e pouco os obstáculos iam sendo vencidos. As novas técnicas que aprendera ora em França (1947), ora na espanhola região de Rioja, ajudavam. Foi ele, por exemplo, quem pela primeira vez decidira trocar os lagares por depósitos fechados (os balseiros, cubas em madeira) para aí colocar o mosto, desta forma preservando melhor os aromas.

Havia, no entanto, um enorme obstáculo que colocava as maiores dores de cabeça a Fernando Nicolau de Almeida: a temperatura. Ele sabia que a fermentação alcoólica não podia passar dos 30 C sob pena de se estragar todo o vinho. Queria situá-la bem perto dos 28 C, mas como o conseguiria  no Meão? Tinha de o arrefecer e para isso mandou construir um depósito onde colocaria gelo numa espécie de armadura, puxando depois o mosto para aí.

Mas onde iria ele fazer o gelo, perdido num Alto Douro quase desértico? Tinha de o mandar vir de fora, sem dúvida, e foi assim que camionetas vindas de uma fábrica de conservas em Matosinhos, partiam daí pela noite com o precioso carregamento de blocos de gelo envoltos em serradura para aguentar a viagem desgastante de horas em curvas e contracurvas, vencendo montanhas até ao Meão.

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Quando, finalmente, em 1952, Fernando Nicolau de Almeida, vencendo tudo e todos, conseguiu lançar o seu primeiro vinho tinto de consumo na região do Alto Douro, onde até aí só os Porto imperavam, pode-se imaginar o seu enorme contentamento e, também, o de todos quantos hoje anseiam beber, ou mesmo provar, um Barca Velha, exibindo no rótulo o nome da Casa Ferreirinha.

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José Manuel Moroso integrou os quadros do EXPRESSO como jornalista e aí trabalhou em várias áreas durante mais de 20 anos. Foi durante muitos anos responsável pela famosa secção Gente (Expresso), substituindo Pedro d’ Anunciação, passou pela política, foi editor de desporto, editor dos Guias do Expresso e do Livro da Boa Cama e da Boa Mesa e editor da Sociedade. Especializou-se, também, em críticas de vinhos e a escrever sobre relógios. Transitou, depois, para o jornal Sol, acompanhando a anterior direcção do EXPRESSO, onde se manteve nove anos, até ao final de 2015.