Obra de Arte Mecânica

Breguet

30

Em 2021, a Breguet celebra os 220 anos do turbilhão, uma minúscula obra de arte mecânica inventada por Abraham-Louis Breguet, cuja beleza visual não deixa ninguém indiferente e cuja dificuldade técnica e mestria de execução a transformam na “rainha” das complicações relojoeiras.

O relojoeiro dos reis, o rei dos relojoeiros”. Assim ficou conhecido Abraham-Louis Breguet, o mestre que assegurou a sua posição na história como o pai da relojoaria através das suas criações e habilidade técnica. De facto, de 1793 até à sua morte, em 1823, Breguet provou ser um génio da relojoaria, tendo melhorado continuamente as suas aptidões e criado inúmeras invenções determinantes para a evolução do sector. E foi uma dessas invenções que viria a revolucionar para sempre a história da relojoaria e da precisão.

Falamos pois do turbilhão, uma minúscula obra de arte mecânica, cuja beleza visual não deixa ninguém indiferente e cuja dificuldade técnica e mestria de execução a transformam na “rainha” das complicações relojoeiras. Um mecanismo que, hoje em dia, vai muito além das funcionalidades para as quais foi inicialmente concebido, tendo-se transformado num objecto de desejo, quer para os mestres relojoeiros, que o encaram como o apogeu das suas capacidades, quer para os amantes da relojoaria mecânica. Mais do que uma complexa complicação relojoeira, o turbilhão é uma obra de arte ao alcance de apenas alguns apreciadores e fruto do trabalho de muito poucos mestres relojoeiros.

A história do turbilhão é, como o próprio mecanismo, fascinante, e remonta ao século XVIII. Durante séculos, a influência da gravidade na precisão dos relógios mecânicos preocupou os relojoeiros, sobretudo se pensarmos que as máquinas do tempo estavam longe de ser usadas no pulso e que eram os relógios de bolso os responsáveis por informar as horas, relógios esses que passavam grande parte da sua vida na posição vertical. De facto, quando um relógio está na posição vertical, a gravidade da Terra acelera ou abranda a roda do balanço e o escape, como resultado das mudanças no seu centro de gravidade, causando um aumento ou perda de marcha.

Numa altura em que a maioria dos melhores relojoeiros da época tentava corrigir o problema mecanicamente, Abraham-Louis Breguet decidiu, em vez disso, enganar a física ao inventar, em 1795, o turbilhão, invenção que viria a patentear em 1801. Na sua demanda por maior precisão, Breguet pensou num mecanismo que pudesse compensar os desvios na precisão da marcha e desenvolveu o que era, essencialmente, um pequeno “relógio dentro do relógio”.

Tratava-se de uma gaiola rotativa que transportava o balanço e o escape e que completaria uma volta de 360º num minuto. Desta forma, o movimento de rotação compensaria os desvios de marcha observados em posições verticais (dado que o conjunto escape-balanço acabaria por não passar tempo significativo na posição vertical), os erros originados pela gravidade poderiam ser contrariados e o relógio manteria um ritmo mais preciso e constante. O tradicional Turbilhão de Breguet ficaria para a história como turbilhão de um minuto, devido ao tempo que a gaiola levava a completar uma rotação completa.

Nos círculos da relojoaria, criar um turbilhão é visto como a consumação das capacidades de um artesão. A complexidade da sua manufactura, por si só, garante que apenas alguns relojoeiros são capazes deste alcance erudito. Nas gerações de relojoeiros que se seguiram a Breguet, houve provavelmente menos de 250 mestres capazes de executar tal obra-prima. Numa época em que os computadores não existiam e todas as ferramentas eram, de alguma forma, primitivas, a produção do turbilhão era um certificado de competência muito mais apreciado do que os diplomas outorgados pelas melhores escolas de relojoaria.

Depois de Breguet e dos relógios de bolso, o turbilhão deu o salto para o pulso em 1930, quando a empresa LIP concebeu o primeiro relógio de pulso com turbilhão. Mas seria nos finais dos anos oitenta, com o renascimento da popularidade dos relógios mecânicos, que o turbilhão regressaria em força, representando para muitos o epítome desse renascimento.

No que à Breguet diz respeito, e numa época em que a marca se encontrava praticamente esquecida, foi adquirida em 1999 pelo Grupo Swatch. Com esta aquisição, o falecido Nicolas G. Hayek, co-fundador do grupo, presidente da administração e CEO da Breguet, fez mais do que ressuscitar o nome do filho mais famoso e importante da relojoaria: fez também renascer o conceito do turbilhão que, por muito difícil que seja de acreditar, também permaneceu praticamente adormecido até então. Hoje, a Breguet mantém-se uma das mais importantes manufacturas mundiais de turbilhões e as marcas de relojoaria parecem, nos últimos anos, ter reconhecido algo que Hayek já tinha sido capaz de ver em 1999: o turbilhão como a derradeira ferramenta de marketing de luxo.

Hoje, a demanda pela sofisticação, exclusividade, excelência relojoeira e estética refinada mantém-se e, com ela, o turbilhão renova-se e reinventa-se, mantendo, no entanto, inalterado o seu estatuto de obra mecânica de complexidade e fascínio visual que continua a cativar o universo do tempo.