Apenas com a certeza de que seria uma experiência diferente, rumámos ao Algarve para participar no primeiro jantar sensorial da história do Al Quimia, idealizado e preparado pelo chef Luís Mourão. Um evento que surpreendeu, sem dúvida, e pela positiva. Alguns dias passados e a sensação de surpresa permanece. Afinal não é necessário estar às escuras ou de olhos vendados para a comida nos despertar os sentidos.

A expectativa era grande. Afinal, o convite chegou-nos impresso numa folha de papel comestível – como aliás fazia sentido -, com uma prosa impecável, mas que nada revelava. Apenas a promessa de um jantar diferente que tinha por objectivo despertar todos os sentidos. A curiosidade, tão típica do ser humano e mais aguçada naqueles que fazem do jornalismo profissão, essa ficou imediatamente alerta.

luis_mourao

Hoje, algumas semanas volvidas desse evento, e por mais estranho que possa parecer, a memória sensorial daquele que foi muito mais do que um jantar, mas sim uma verdadeira experiência, permanece. E é com essa distância, necessária para a maturação de ideias, sentidos e sensações, que agora, como prometido, vos contamos tudo.

bebidas

Foi na envolvência do Epic Sana Algarve Hotel que toda a experiência decorreu. Ou não fosse o Al Quimia, comandado pelo chef Luís Mourão, um dos principais restaurantes desta unidade hoteleira de cinco estrelas. À chegada fomos recebidos pelo próprio criador de todo o menu que, sem revelar nada que pudesse levantar um pouco o véu acerca do jantar, lá foi respondendo às perguntas do grupo de jornalistas e nos deu as boas-vindas.

Fomos então convidados a entrar, entre expectantes e hesitantes, na sala do restaurante onde decorreria toda a experiência. A meia-luz imperava e envolvia o espaço numa espécie de aura de mistério e silêncio. Nas mesas, dispostas num grande semi-rectângulo, apenas a toalha e os guardanapos. Nada mais. A expectativa adensava-se, mas tudo se iria revelar em breve e num desfilar de surpresas e sensações.

vaso

E tudo começou com… um vaso! Sentidos todos alerta! Nas mãos, os empregados transportavam aquilo que, à primeira vista, parecia ser uma planta. Mas não era. Claro que não. Tratava-se do suporte para um prato – convenientemente apelidado de “A Horta” – de caviar, caracol e esfera de alheira, aromatizado por um espumante Vértice Grand Cuvée 2006.

aquario

Primeira surpresa passada e ainda não tínhamos visto/sentido/provado nada. À nossa frente foi-nos colocado um aquário. Sim, leram bem, um aquário, com direito a peixinho e algo que se assemelhava a rochas (nome do prato, aliás). “Agora descubram como se come”, disseram-nos. Olhámos uns para os outros surpreendidos e com o olhar vago de quem coloca as mais inusitadas hipóteses para tentar comer, com uma colher (único talher disponível), o que tínhamos sobre a mesa. Para piorar, vendaram-nos, pedindo para continuarmos a imaginar como se comeria aquele prato. Instantes depois retirámos as vendas… et voilá! Sobre o aquário tinham-nos colocado uma taça com a “verdadeira” comida: uma selecção do oceano, acompanhada por um vinho verde Quinta do Ameal Escolha 2008.

regador

E a viagem pelos mares continuou no prato seguinte, denominado “A Baixa-mar”. Sobre uma bandeja de ardósia, um regador fumegante transportava uma vieira. Ao lado, ouriço-do-mar e tempura de algas. Tudo harmonizado por um champanhe Ayalla Blanc de Blanc 2005. Dos mares para “O Campo”, o prato seguinte, apresentado sobre uma tábua de madeira, convidava-nos a saborear um parfait de foie gras, confit de figo, espuma de ovo, presunto e pipocas fumegantes. Para acompanhar, um vinho Quinta de San Joane Superior 2009.

ovo

De regresso aos oceanos, desta feita à “Preia-mar”, o prato surpreendia imediatamente pela apresentação: uma caixa de madeira e vidro com auscultadores incorporados. Lá dentro, toda uma decoração alusiva ao mar e, sobre o vidro, salmonete, lula, fígado de tamboril panado com quinoa e geleia de hortelã da ribeira. Tudo saboreado ao som da rebentação das ondas e harmonizado com uma cerveja artesanal Amphora Maria da Fonte.

musica

Deixando para trás os mares, o tempo agora era de regressar a terra e às carnes. Num prato denominado “A Antítese”, o chef Luís Mourão convidou-nos a degustar moleja, vitela e bochecha de porco, risotto de maçãs e cogumelos e puré de maçã. Para acompanhar um vinho Marquês dos Vales – Grace Vineyard TN 2008.

carne

Quase a terminar, um prato que “puniu” os mais curiosos (a maioria dos presentes, portanto). Convenientemente apelidado de “Sensações”, este apresentava-se sob a forma de um sorvete de espinheiro marítimo, crocante de algas, areia de amêndoa e salicórnia. Num copo tapado com pelicula transparente jazia o gelado, o crocante e a amêndoa. Lá dentro, envolvida numa espuma misteriosa, estava a salicórnia.

gelado

Curioso que é curioso pensou: “Esta película é para rasgar e comer tudo misturado”. E assim fez a maioria. Acontece que a salicórnia (uma planta que substitui o sal na cozinha gourmet) é, como o próprio nome indica, extremamente salgada, pelo que a combinação de todos os sabores se revelou uma explosão de sensações, pouco indicada para os mais fracos. Valeu-lhes o cocktail de moscatel roxo, gengibre e hortelã para acalmar os ânimos das papilas gustativas.

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Depois desta explosão gastronómica eis chegada a hora da apoteose. E que apoteose! Durante uns bons dez minutos vimos “A Surpresa” ser preparada diante dos nossos olhos. Tudo começou com uma folha de acetato que, depois de devidamente embebida em álcool, nos foi colocada à frente. “Vão pegar fogo a algo”, foi o pensamento de muitos. Nada mais errado. Sobre essa folha foi colocada uma taça de chocolate repleta de iguarias. À volta, foram surgindo desenhos e outros pormenores doces. No final, azoto líquido cobriu tudo e… surpresa das surpresas, a taça foi quebrada à nossa frente, espalhando pedacinhos de chocolate e o resto do seu conteúdo sobre a mesa.

“Agora, comam com as mãos”, disseram-nos. E assim fizemos deliciando-nos com sabores doces, cortados por toques de acidez: chocolate guayaquil, espuma de cheesecake branco, cremoso de framboesa, bombom de chocolate, bolo de iogurte, merengue de framboesas, gel de morango, glaçage de chocolate, molho de baunilha bourbon, colmeia de mel, cogumelo de morango, terra de alfarroba e pistachio, geleia de violeta. A acompanhar um vinho da madeira Verdelho 1975 – Cossant-Gordon.

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Para finalizar, e já na esplanada, o café da praxe (cuja apresentação era tudo menos da praxe), servido sobre um tronco e acompanhado por um charuto e um batom, ambos de chocolate. Dois dedos de conversa animada e o jantar foi dado por concluído, com a certeza, para muitos, de que este evento sensorial promovido pelo chef Luís Mourão e restaurante Al Quimia foi, mais do que um jantar, uma verdadeira experiência que colocou aos rubro sentidos e muitas emoções. Numa palavra: extraordinário.