Os chamados “independentes” na alta relojoaria são hoje um grupo de marcas e criadores que ganharam por mérito próprio um lugar de relevo entre as grandes marcas. A independência está-lhes no sangue e a criatividade patente em cada relógio é prova disso.

O que significa hoje ser independente no mundo da alta relojoaria? Trata-se de uma vantagem em relação a outras marcas com heranças de décadas e mesmo séculos? Ou será que estas últimas, por se incluírem sob a protecção de um grupo industrial ao qual pertencem outras marcas, beneficiam de vantagens competitivas assinaláveis que se reflectem na qualidade intrínseca dos seus produtos? A resposta para todas estas questões é invariavelmente… sim… e não!

Tanto a Urwerk como a MB&F, e mais recentemente a HYT, pertencem a um movimento revolucionário nascido no final da década de 1990 conhecido como “Nouvelle Horlogerie”, onde os termos “fronteiras” e “limites” têm pouca expressão. Como independentes, estas 3 marcas podem não beneficiar da escala e dos recursos industriais que um conglomerado de marcas como as pertencentes ao grupo Richemont ou LVMH tem à sua disposição, mas compensam este “handicap” com uma liberdade criativa não restringida pela história ou pela obrigatoriedade de se vergarem perante um ADN técnico e estilístico cristalizado ao longo de décadas.

Urwerk = a marca que não gosta de ponteiros

Veja-se o caso da Urwerk, fundada em 1997 pelo relojoeiro Felix Baumgartner e o designer Martin Frei, ambos então com pouco mais de vinte anos. Numa altura em que a tendência pendia para relógios clássicos, maioritariamente de caixa redonda, dois ou três ponteiros e complicações como turbilhão, repetição de minutos ou calendário perpétuo, o primeiro modelo da Urwerk, o UR-101, assumia formas muito pouco comuns rompendo com o status quo estético vigente na alta relojoaria. A aparência quase extraterrestre e a opção por uma indicação peculiar, sem ponteiros, que mistura o analógico com o digital através de quatro satélites horários, viriam a definir todo o percurso da marca até aos dias de hoje. E que percurso!

O primeiro êxito digno desse nome aparece em 2003 com o UR-103.01. Em 2005, o excepcional Opus V, criado em pareceria com a Harry Winston, dá à Urwerk uma visibilidade global.


MB&F = inspirada nos sonhos

Um outro caso de independência é o da MB&F, um laboratório criativo cuja sigla é composta pelas iniciais do fundador, Maximilian Busser. Max, como é conhecido entre amigos e conhecedores, chegou à relojoaria um pouco por acidente tendo-se iniciado na Jaeger-LeCoultre onde permaneceu durante 7 anos.

Com apenas 31 anos é convidado a liderar a área da relojoaria da Harry Winston onde recria a marca e a posiciona a par com alguns dos mais relevantes nomes da alta relojoaria. Mas o sucesso traz consigo uma profunda insatisfação pessoal, e no auge da sua carreira, Max decide deixar a Harry Winston para fundar a MB&F baseando-a em critérios de criatividade, dimensão empresarial contida e partilha de competências onde cada fornecedor externo é identificado como um amigo (friend), o “F” da sigla MB&F.

Apenas dois anos após a fundação, em 2005, a marca apresentava o seu primeiro modelo, o Horological Machine 1 (HM). Uma criação que rompia com quase tudo o que, ainda hoje, define um relógio. Seguiram-se mais cinco criações HM, intercaladas por 4 criação de aparência mais clássica baptizadas como Legacy Machines (LM).


HYT = a revolucionar a forma de ler o tempo

Mais recente, mas não menos inovadora como marca, a HYT alcançou a façanha de associar o relógio mecânico a uma das mais antigas técnicas de medir o tempo. O elemento principal da milenar clepsidra, o líquido, tornou-se a substância que nas criações da HYT é responsável por marcar a passagem das horas de forma linear, enquanto os minutos recorrem ao tradicional ponteiro, neste caso com movimento retrógrado.

O modelo inaugural, o H1, estreou-se em 2012 a vencer o prémio para a inovação atribuído pelo Grande Prémio de Relojoaria de Genebra (GPHG).


Independentes = exclusividade

Um aspecto que contrasta fortemente com os nomes mais conhecidos da alta relojoaria suíça é o da exclusividade ditada pela capacidade de produção extremamente reduzida destas marcas independentes. Em boa parte não se trata de uma opção, mas antes de uma consequência directa da complexidade dos conceitos que cada uma delas propõe.

E se a HYT produz actualmente cerca de 500 peças por ano, no caso da MB&F a produção não ultrapassa as 285 unidades. Um número equivalente à produção diária da Patek Philippe, e, noutra categoria, o que a Rolex produz em apenas uma hora. Se a isto se acrescentar que em apenas 10 anos, a MB&F criou nada menos que 11 calibres originais, 7 dos quais criados totalmente de raiz, de A a Z, então estaremos perante uma verdadeira façanha para uma empresa desta dimensão. O caso da Urwerk ainda é mais esclarecedor. A cada ano não saem dos ateliers de Genebra e Zurique mais do que 150 relógios.

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Carlos escreve como freelancer para diversas publicações nacionais e internacionais sobre o tema que sempre o fascinou, a alta-relojoaria. Uma área que considera ser uma porta para um mundo muito mais vasto, multidisciplinar e abrangente - uma fonte de informação cientifica, histórica e social quase inesgotável sobre quem somos e como aqui chegamos.