Diogo Machado, conhecido como Add Fuel, é o jovem artista urbano português que criou o mural que pode ser visto na nova Boutique dos Relógios Plus.

Será uma feliz coincidência – ou talvez não – mas a obra de Add Fuel pode, agora e durante os próximos meses, ser observada em dose dupla na Avenida da Liberdade. Dentro e fora de portas. Porque se é seu o mural que ornamenta a grande parede livre da Boutique dos Relógios Plus, também é sua a obra que cobre o monumento a José Gregório da Rosa Araújo.

O presidente da Câmara de Lisboa, responsável pela criação da luxuosa avenida lisboeta. O seu trabalho irá “tapar” os trabalhos de restauração do monumento, inserido num projecto mais vasto de recuperação de todas as estátuas ao longo da avenida.

Add Fuel já foi simplesmente Diogo Machado, mas “como trabalhava maioritariamente com o estrangeiro, não havia maneira de acertarem com o nome”, explica. Por isso mudou-o. Na altura para Add Fuel To The Fire, “que apesar de ter uma conotação negativa – afinal é potenciar uma situação já de si explosiva – vi no nome uma oportunidade de afirmar que estava a adicionar algo de novo ao mundo da ilustração”.

Só que o novo nome também se revelou um pau de dois bicos; continuavam a enganar-se e agora era demasiado grande para aparecer nos cartazes de forma legível. Assinar as peças tornou-se também um problema pelo que, pouco depois, apenas usava Add Fuel.

A sua obra, que pode ser vista em www.addfuel.com, é vasta e diversificada. Participa em inúmeras exposições, em Portugal e na Europa, sobretudo, e continua a mostrar a sua arte à população das principais cidades do nosso país ou em capitais como Londres e Paris. Foi na reinterpretação da tradicional azulejaria portuguesa, utilizando motivos modernos, que Add Fuel encontrou o seu melhor meio de expressão.

Se a sua obra na Avenida da Liberdade será provisória – durará os meses necessários até terminar a restauração das estátuas -, a obra da loja, pelo contrário, tem todas as condições para ser admirada por muitos e muitos anos. Desde que surgiu o convite para ir visitar o espaço e conhecer o conceito da nova Boutique dos Relógios Plus – que procura colocar a Arte no centro do projecto – que Add Fuel ficou interessado. “Deram-me total liberdade criativa.

Afinal, era uma peça para o interior de uma loja pelo que pensei que pudessem haver algumas condicionantes. Mas não. Pediram-me apenas que a obra fizesse referência à relojoaria ou ao tempo, mas isso era já o que fazia sentido para mim, para criar uma ponte entre a obra e o local.”

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Como surgiu a ideia de reinterpretar a azulejaria?

Surgiu quase instintivamente. Em 2007 ou 2008 fui convidado para cobrir uma fachada de um prédio em Cascais, que é a minha terra natal. Nessa altura pensei imediatamente em transpor a azulejaria para o meu universo artístico.

Como foi o processo criativo para esta obra em particular?

Tinha uma condicionante grande, o facto das escadas para o primeiro andar ficarem mesmo em cima da obra. Logo, a peça teria de ser dinâmica, teria de poder conviver com esse espaço. Depois, queria reinterpretar os azulejos utilizando elementos da relojoaria tradicional. Estudei os mecanismos dos relógios, vi que peças tinham e apliquei tudo isso na obra. Num primeiro olhar, quem entra vê apenas azulejos mas num segundo olhar descobrem todo o universo da relojoaria aqui representado. Turbilhões, escapes, rodas, ponteiros, utilizei todos esses elementos”.

Se utiliza motivos contemporâneos, as cores, pelo contrário, são muito tradicionais.

Faço muito pouco a transição para outras cores. Uso sobretudo azul e branco, como aqui, e por vezes um pouco de amarelo. Porque são essas as cores que o nosso imaginário identifica com a azulejaria.

Sou sobretudo um artista urbano e a localização, o meio envolvente, são fundamentais. Claro que se o meio muda também exploro isso no meu trabalho. Por exemplo, estive recentemente em Ovar, a capital do azulejo, e lá eles utilizam muito mais cores do que é normal. Por isso utilizei também laranjas, castanhos, verdes. Ou antes, em Mulhouse, França. Uma cidade com uma longa tradição na indústria têxtil e com padrões típicos muito famosos.

Marcas como a Gucci ou a Saint Laurent não só compram as matérias-primas como utilizam esses padrões nas suas criações. E por isso quando pintei lá fiz também uma reinterpretação desses padrões, utilizando as mesmas paletes cromáticas, que são muito diversificadas.

Nesse caso, porque não utilizou cores mais ligadas à relojoaria aqui, como o ouro, apontamentos em safira?

Pensei nisso. Cheguei a fazer estudos nesse sentido, sobretudo com o dourado velho, num tom muito parecido ao que podemos encontrar na loja, na realidade. Mas senti que se o fizesse a integração na loja parceria forçada. Ou como se fosse um objecto de decoração. Assim, a peça está absolutamente integrada mas continua a viver como peça artística de direito próprio.

Qual o papel que a arte pode desempenhar numa loja?

Eu separo muito bem o meu trabalho de rua daquele que faço para exposições, para colecções. Nestes casos utilizo sempre telas ou painéis de cerâmica. É uma regra de ouro que quebrei, pela primeira vez, ao pintar este mural. E fi-lo precisamente porque me encantou esta ideia de apostar em arte para se diferenciar das outras lojas.

Está contente com o resultado?

Muito. Foi a primeira vez que vi a peça com a loja já pronta e estou mesmo muito contente. Sobretudo por uma questão técnica, meramente técnica, mas fundamental para conseguir o resultado pretendido.

Geralmente, para se conseguir um efeito sombreado utiliza-se uma tinta especial, com um pouco de brilho, mas quando perguntei ao arquitecto como iria ser a iluminação da loja apercebi-me imediatamente que corria o risco das sombras ficarem brilhantes e portanto sobressaírem muito mais do que o resto da obra.

Obviamente o efeito contrário ao pretendido. Depois de alguns testes decidi recorrer a uma tinta azul escura que apliquei muito esbatida para conseguir esse efeito e, agora que a vejo iluminada, tenho de reconhecer que acertei – modéstia à parte – na mouche!

VIABruno Lobo
Turbilhão
A Turbilhão é uma revista semestral, especializada na área da Alta Relojoaria e do Luxo.