A tradição e o sentimento do Fado preenchem-lhe a alma. Na voz traz novas interpretações a esta secular forma de sentir em português. Fora dos palcos, Cuca Roseta procura a eternidade do tempo e assume o papel de mãe, mulher, profissional e friend of the brand da Boutique dos Relógios Plus.

Como nasceu a paixão pela música e pelo fado em particular?

A paixão pela música nasceu comigo. Desde pequenina que a música surge naturalmente. Tenho cassetes a cantar com dois anos, andava com um piano de sopro pela casa com quatro e com seis já tocava músicas de ouvido. Todos os testes da escola diziam que só tinha aptidão para a música, ao que eu não achava tanta graça uma vez que queria ser psicóloga. Acho que sempre houve um destino marcado para mim e isso era muito claro desde o primeiro dia. O Fado veio mais tarde. Sinto que me procurou, as oportunidades “irrecusáveis” surgiram e a vida foi-me levando para onde tinha de levar. À medida que ia dando cada passo ia-me sentindo mais completa. Não há dúvidas que nasci para cantar o fado. Tudo o que sou acaba nesse pensamento.

 

Como decidiu que o fado seria a sua “forma de vida”?

Eu não decidi, nunca fiz essa escolha, surgiu naturalmente. Talvez o fado tenha decidido por mim. Ele procurou-me, convidou-me, mostrou-me o caminho e eu fui, fui-me deixando levar por onde fazia mais sentido, fazendo as escolhas que sentia serem as mais certas. É um instinto que nos fala cá dentro na hora derradeira. Acho que sempre segui essa voz e tudo fluiu com muita naturalidade. Tenho uma música que diz isso: “sê mais que tu, vai mais além, ao mais alto que o sonho tem, o teu destino é o teu talento, o teu destino é do vento”.

Faz parte da chamada nova geração do fado. Quais as principais diferenças e semelhanças que apontaria entre o fado “tradicional” e o da nova geração?

Assim como aconteceu com a Amália, que fez do nosso fado canção do mundo, o fado vai-se adaptando aos tempos e aos estados de espírito que se vivem. Hoje, cantam-se outros poemas, contam-se outras histórias, as do nosso tempo. O fado é puro e verdadeiro e a sua forma de tocar, o ritmo, tom, batida, mantém-se sempre com a mesma energia e intenção. O fado estará sempre vivo, seja o tradicional seja o mais moderno. Mas o fado deve adaptar-se, respeitando as raízes, claro, para se manter vivo.

 

Não sendo uma fadista tradicional, que tipo de obstáculos este facto trouxe para que se conseguisse impor neste meio artístico?

Sempre tive obstáculos para cantar fado, desde o primeiro minuto. Ao mesmo tempo que tudo acontecia e fluía, havia muita resistência da parte dos residentes e tradicionais do fado. Ainda hoje sinto estarem vivos alguns pequenos lugares obscuros onde ainda me tentam constantemente excluir. Mas hoje já não têm força. Porque contra o universo ninguém pode e o que tem de ser tem muita força! Hoje tenho o meu público que me enche os concertos, que me escreve mensagens bonitas, que canta as minhas músicas e, quando passo pelas ruelas dos bairros lisboetas, onde outrora me olhavam de lado, hoje vêm dizer-me as coisas mais bonitas. Havia o preconceito, ou porque não era do bairro, ou porque não usava preto, ou porque os meus pais não tocavam ou cantavam fado, ou porque não usava o xaile…

Sente que pode haver o risco, com as novas interpretações, de perdermos a noção do que é o fado?

De todo. O fado existe na energia de quem o canta. O fado tradicional nunca vai morrer. Mas o fado também se tornou comercial e isso não é mau. Tudo é bom, desde que haja respeito pela sua essência. O fado que é património do mundo foi aquele que se tornou famoso pela Amália Rodrigues. Ela nunca foi tradicional, foi extremamente criticada pelos puristas, mas foi ela que levou Portugal ao mundo. A meu ver foi a imensa herança que a Amália deixou que o fez estar mais vivo do que nunca até aos dias de hoje.

 

Quando é que percebeu que tinha necessidade de escrever os temas que canta?

Antes de cantar fado já escrevia poesia, já tinha muitos momentos de inspiração. Cantar veio depois e usar os meus poemas e músicas mais tarde ainda. Quando gravei com o Gustavo Santaolalla tinha tantos poemas e músicas que ele me pediu para ouvir e incentivou-me a gravar o “Nos teus braços”, que até hoje continua a ser um dos temas que mais pedem nos concertos. Na altura era algo muito arrojado no fado. Não era habitual alguém compor e escrever, também neste campo fui criticada. Hoje, já com comentários de grandes da música e da poesia, fui construindo um repertório muito ao jeito do que se procura no fado, mais genuíno e mais verdadeiro. Há coisa mais verdadeira do que poder contar a nossa própria história?

O que se pode esperar do seu próximo trabalho?

Chama-se Luz. Todos os meus discos têm um elemento da natureza. Primeiro Pena, segundo Raiz, depois Riu e agora Luz. Luz porque é um disco mais interior, espiritual, e também com novos temas e roupagens interessantes. Este é um disco onde se pode ouvir desde o fado tradicional ao mais moderno e até música portuguesa mais popular e tradicional. Luz é toda uma viagem pelo meu mundo do fado.

 

Foi anunciada como friend of the brand da Boutique dos Relógios Plus. Como recebeu este convite?

A Boutique dos Relógios é uma marca com muitíssimo prestígio. Acho que qualquer artista se honraria de se associar à esta família e a esta marca. O mesmo aconteceu comigo, fiquei muito feliz com este convite.

Deu voz e letra à música que acompanha o vídeo oficial dos 20 anos da Boutique dos Relógios. Como foi compor este tema?

Foi muito interessante. Não era fácil imaginar uma letra que trouxesse Portugalidade, com a sua emoção adjacente, e que, ao mesmo tempo, falasse de relógios. Pensei em encontrar esta metáfora do relógio da vida, que conta o emocional, que acelera ou atrasa depende do nosso astral. O filme da Boutique dos Relógios contava a história de uma menina que sonhava ter um dia um relógio como o do pai ou um presente da boutique. E porque os valores se passam de geração em geração, era preciso ter todos estes sentimentos nesta música. Foi um desafio. Mas o produto final deixou-me feliz.

 

Quais as suas marcas de eleição. Porquê?

Gosto muito do bom gosto que IWC sempre mantém; acho a Longines muito ecléctica, mas a Gucci tem trazido opções arrojadas que me interessam e a Omega mantém-se inabalável na sua elegância.

 

 

Foi, recentemente, mãe pela segunda vez, em pleno auge da sua carreira. Como consegue gerir o seu tempo, entre vida pessoal e profissional?

Não é fácil, mas tudo se faz com calma e discernimento. É preciso tentar não stressar. É preciso saber ser muito organizada, estar preparada para dormir muito pouco, ou praticamente nada, e ainda assim estar sempre com abertura para brincar com as crianças ou lidar com o público que nos ouve. Não é fácil, mas nada é impossível. É a maneira como vemos as coisas que as torna melhores ou piores.

 

De que forma o relógio faz parte do seu dia-a-dia?

O relógio, infelizmente, faz parte do meu dia-a-dia ao minuto. Gostava de um dia poder olhar para ele sem tanto peso de responsabilidade. Mas, como dizia há pouco, cada minuto pode ser vivido como uma eternidade, se for vivido com calma. E assim se vai passando minuto a minuto de uma vida muito atarefada, aproveitando ao máximo cada momento e tudo o que a vida me tem dado.

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Directora/Editor in Chief | Revista Turbilhão