Angolana de quarta geração, Mariza dos Santos é também uma artista de corpo inteiro. Autodidacta no que à arte diz respeito, Mariza encontrou na pintura abstracta a forma de “escrever” sentimentos, memórias e ficções. As artes plásticas são ainda a “arma” que utiliza para fazer a diferença e ajudar um povo marcado pela guerra a crescer e a sorrir.

Como nasceu a sua paixão pelo universo artístico?

Paixão é uma realidade demasiado forte e efémera, a Arte nasce no momento em que nascemos e desperta em cada momento. Alimenta-se da nossa sensibilidade e desfalece sempre que deixamos de dialogar connosco próprios.

A inquietação é o estado de espírito que movimenta a arte, que constrói o nosso dia-a-dia e enquadra o modo como enfrentamos (dialogamos) o mundo. De um modo simplista a Arte suporta-se em duas faces: a alimentação do intelecto de forma que essa alimentação seja um catalisador daquilo que somos ou podemos ser e a alimentação das técnicas que permitam que a nossa expressão/comunicação chegue tão longe quanto a nossa imaginação permitir.

De um modo ainda mais simplista, a Arte é muito trabalho, suor e capacidade de “largar” sentimentos. Essa aprendizagem faz-se pela vida e na capacidade de aprendermos sempre. Aliás a minha formação tem uma grande componente de autodidactismo. Fui desde sempre atrevida e irrequieta e, desde miúda, a cor sempre me fascinou. Lápis de cor, plasticinas, tudo o que me permitisse colorir ou dar as “minhas” formas foram sempre as “bonecas” preferidas da minha infância.

Tive sempre o apoio e a liberdade possível dos meus pais, numa infância feliz. Brinquei na rua, conheci o mundo pelo lado exterior da “redoma” em que muitos pais asfixiam os filhos e fiz muitos amigos que se mantiveram ao longo dos anos e das guerras que já suportámos. A guerra é sempre guerra, é muito marcante. A destruição, morte e ruína humana é o pior que podemos observar (viver) e eu passei tudo isso.

Pela positiva, ficou um sabor agridoce pela solidariedade e pela consolidação da amizade de quem ficou. Esta foi a massa que fez despertar a minha vontade de passar mensagens e os meus registos do Mundo. Os meus “flashes” pediram e eu atrevi-me a voltar aos lápis de cor, aos guaches e aguarelas para dar expressão ao meu diálogo interior, inicialmente, e como uma forma de comunicação quando esse diálogo interior extravasou os seus apertados, mas difíceis, limites.

As telas, pincéis, outras tintas e materiais, as técnicas de “escrever” sentimentos, memórias e ficções, vieram depois, naturalmente, como uma extensão de um caminho já percorrido.

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Nesse universo, a dança e a pintura são as suas artes preferidas. Por que não enveredou pela dança?

A dança é movimento. Adoraria ter sido bailarina clássica. A minha morfologia física ajudava e eu frequentei durante anos as aulas de ballet, na única escola que existia na altura em Luanda. Fui aluna de uma mulher fabulosa – Isabel Falcão.

O meio era muito limitado, faziam-se apenas alguns ” saraus” e era muito difícil continuar, em especial em Angola, onde os meios culturais eram mais limitados. Sou a 4ª geração nascida em Angola (Luanda), não tinha família em Portugal (na época a chamada “metrópole”) e era muito difícil eu viajar para Europa e viver só. Hoje as coisas são bem mais facilitadas socialmente, a esse nível, e ainda bem porque podemos ter sonhos e asas, mas se nos cortam as guias não conseguiremos voar, foi o que aconteceu.

Estavam vedadas algumas coisas aos que viviam fora dessa metrópole mas eu sabia que um dia tudo estaria conjugado e eu iria retomar os sonhos que fossem possíveis. A minha forma de expressão passou a ter forma através das artes plásticas.

Dentro da pintura, as suas obras inserem-se na vertente abstracta. Porquê?

Sou apaixonada por Kadinsky e não gosto de todo de pinturas perfeitinhas. Adoro cor, movimento e o meu dia (o passado, o presente e a perspectiva do futuro) é grande fonte de inspiração. Faço parte de um povo altamente criativo.

Dou-lhe um exemplo: uma criança menos favorecida não tem dinheiro para comprar um carrinho e com uma simples lata de sardinhas, umas caricas, mais uns pauzinhos e outros pequenos enfeites constrói um carro bem mais bonito, aos meus olhos, que os perfeitos que saem de uma linha/fábrica de brinquedos.

Gosto de abstracto porque não sei e não quero ser retratista. Para isso existe a fotografia.

Onde busca inspiração para os seus quadros?

Tal como já anteriormente disse, a partir do momento em que vivemos e temos a “sorte” de criar os ritmos adequados a essa vivência, a inspiração é um pouco como o respirar, ela surge automaticamente, como quem respira. Hoje, é Sábado, não vou procurar inspiração, talvez Terça-Feira, é um non sense. Inspiração é viver, a minha comunicação são as memórias e as esperanças, o meu catalisador é a cor e o movimento.

Quando estes caminhos não são ou não forem suficientes, a auto dialéctica fará com que outros caminhos formas e discursos sejam procurados e experimentados. Hoje, no meu dia-a-dia, quero fazer prevalecer as cores do meu povo, do meu país. África é um continente fabuloso em cor e movimento.

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Em Angola, a sua obra é já amplamente reconhecida. O reconhecimento internacional é uma meta a atingir?

Nunca pensei nisso muito a sério. Sou uma pessoa privilegiada pois não dependo de vender a minha arte para poder subsistir e tenho todo o tempo possível para lhe dedicar. Se o reconhecimento internacional vier a ocorrer, é lógico que ficarei muito orgulhosa, por mim e pelas pessoas que me acompanham.

Mas vamos pôr os pés bem assentes na terra. A indústria da cultura é ainda muito incipiente em Angola. Quase que posso dizer que não existe. Mas Angola é o meu meio ambiente, onde me movimento, respiro e vivo. Se esse reconhecimento passar por “abandonar” Angola, então essa não é a minha meta.

Que benefícios esse reconhecimento pode trazer em termos pessoais, profissionais e até para a própria cultura do país?

Para mim, mais importantes que a “selecção” da dita indústria está o panorama emergente das Artes em Angola. Estão a despertar, lentamente no início mas, neste momento, sente-se uma maior actividade e os acontecimentos começam a suceder a um ritmo maior. Sinto orgulho e, sobretudo, muita felicidade pelo contributo que possa ter dado para este movimento.

Eu e mais um grupo de pessoas que adoptaram o conceito de Arte como forma de viver e de expressão, procurando transmitir essa necessidade e forma e intervenção a novas gerações. Tudo tem os seus tempos e, neste momento, Angola comporta e “quer” a vinda de Escolas dedicadas às Artes. Não para virem tocar o sublime com a monopólica varinha mágica da sensibilidade, mas para virem a ensinar técnicas, estudos de materiais, estudos da forma, etc.

O reconhecimento do meu trabalho, poderá ser efémero. Podem ficar pequenas pedrinhas pelo caminho e isso já é óptimo. Tento apenas que a minha vida não se resuma a ter nascido e morrido. Tento contribuir para uma sociedade melhor, para um país melhor e fazer com que África deixe de constituir o “cartoon” da civilização. Apesar de poderem ser acontecimentos de um momento, sempre que um Angolano participa num evento fora do País é sempre um orgulho. Eu sou uma nacionalista.

Pessoalmente, tive algumas obras expostas em Shangai (China) no Pavilhão de Angola e não imagina o orgulho que tinha quando via pessoas de todo o mundo a olharem para o nosso pavilhão e, se paravam a observar algum dos meus “filhos pintados”, as lágrimas vinham-me aos olhos e cantava, para espanto de alguns, o Hino Nacional.

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Além de pintora, é empresária, membro da Organização da Mulher Angolana, presidente da Brigada Jovem dos Artistas Plásticos de Angola e ainda voluntária em projectos sociais. Como gere o seu quotidiano de modo a conseguir realizar todas estas actividades?

Sou empresária sim, mas isso é o que sou menos. Felizmente alguém faz isso por mim, apesar de manter uma pequena componente de consultoria e de representações na esfera dos assuntos relacionados com recursos humanos e imagem.

Sou membro da UNAP (União Nacional dos Artistas Plásticos) e presidente da BJAP. Muitas vezes mais do que terminar obras ou expor, parece-me mais importante o contributo na formação dos jovens, tanto na área da execução das suas obras como na transmissão de valores deontológicos.

O saber fazer é importante, mas também o modo como a mensagem é transmitida, o seu conteúdo e a honestidade é essencial para que nos respeitemos e possamos evoluir em conjunto e com força, em vez de uma luta desregrada de “um contra todos”. Acho que desempenho bem as minhas funções e adoro estar com os jovens com os quais desempenho um duplo papel – converso e passo valores que, muitas vezes por viverem alguns problemas sociais, sinto que gostam de ouvir.

Conselhos e palavras de carinho, quando necessário, são apetecíveis. Mas o trabalho não é só este. O Secretário-geral, o escultor Etona (excelente em Angola e em qualquer parte do Mundo), dá-me o seu apoio nesta questão da Brigada Jovem e ambos estamos a “levantar” a UNAP e BJAP da melhor forma, criando e apoiando muitos artistas e jovens artistas. Sou militante do MPLA logo faço parte da OMA e sinto orgulho em participar e cumprir com todas actividades e deveres de um militante e contribuir para que o próprio Partido possa melhorar e evoluir.

O tempo é escasso, mas a boa vontade e, mais do que isso, o fazer mesmo quando não parece possível transformam essas “impossibilidades” e produzem o milagre da extensão do tempo. Por vezes o cansaço é muito, mas o persistir e não baixar os braços permite-nos encontrar a força necessária. Por vezes o preço é alto, mas a capacidade humana permite-nos estes excessos.

O Universo conspira sempre a meu favor e todos os dias lhe agradeço por gostar de mim e poder ter esta vontade de ajudar quem mais precisa. A solidariedade não é palavra vã quando aprendida em ambientes hostis como numa guerra.

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A venda de algumas das suas obras serve de alguma forma para apoiar esses projectos?

Quanto aos Projectos sociais, sou totalmente contra a “caridade show”, odeio essa postura. Isso não impede que possa, voluntariamente, participar em algumas acções e projectos específicos. Em termos financeiros a minha ajuda não é significativa, apesar de não depender do vender ou não vender, mas posso assegurar que é eficaz – sei o que dou e asseguro que o dinheiro é utilizado para o fim para que foi doado.

Especificamente, tenho canalizado esses valores para a aquisição de roupas e protectores solares destinados a crianças albinas que precisam de cuidados redobrados com essa protecção solar uma vez que o meu país é de muito sol. Tenho apoiado, sempre que posso, a Fundação Arte & Cultura onde ensino as crianças a terem gosto por arte e na aprendizagem de técnicas direccionadas aos mais pequenos.

Esta fundação ajuda meninas em risco, com carências de família, resultado de uma guerra que durou demasiado tempo e que, 12 anos após o seu final, ainda tem muitas feridas para sarar.

A pintura acaba por ser também um escape a este quotidiano atarefado?

Verdade que quando estou mais cansada e muitas vezes triste por quadros humanos que vejo pouco agradáveis, pinto e falo com as tintas, mas adoro o barulho do silêncio, sou duma família oriunda do sul de Angola onde existe um deserto, logo o silêncio é bom companheiro.

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Directora/Editor in Chief | Revista Turbilhão