Criminologista de formação, ex-manequim, criadora de moda, apaixonada pela defesa dos direitos das mulheres e das crianças, Nadir Tati é a verdadeira mulher dos sete ofícios. Angolana de alma e coração, mas fluente em cinco línguas e cidadã do mundo, a estilista mais internacional de Angola esteve no Moda Lisboa para apresentar a sua mais recente colecção. A ocasião revelou-se perfeita para uma conversa sobre percursos, inspirações, desejos e projectos.

O que responde quando lhe perguntam qual é sua profissão?

Sou estilista, criadora de moda, desenho, sou formada em criminologia e tenho uma atenção e um carinho por tudo o que é a defesa dos direitos das mulheres e das crianças. Sou uma mulher dos sete ofícios, como se costuma dizer, e vou fazendo um pouco de tudo, mas a moda, naturalmente, ocupa 90% do que faço. Quando se fala em moda fala-se em arte, em criar e nós estamos sempre a criar. Aliás, um bom criador é aquele que cria todos os dias, a toda a hora e que vai buscar inspirações em todo o lugar. Sou uma mulher dos sete ofícios, que luta e que vai buscar aquilo que for necessário para poder atingir aqueles que são os objectivos da moda do meu país e mostrá-los ao mundo.

 

Como começou a sua história no mundo da moda?

Fui manequim alguns anos e quando se está na área da moda é bem mais fácil dar o salto de manequim para estilista ou criadora. A moda é um universo que engloba estilistas, manequins, fotógrafos, produção, etc. e no final do dia acabamos por ir percebendo um bocadinho de tudo o que se passa, por isso não foi difícil a transição de um mundo para outro. Pelo contrário, ajudou muito porque, hoje, sou quem sou pelo facto de ter passado por todos esses caminhos, que são muito interessantes. O facto de ter estado em vários países deu-me também a possibilidade de aprender a interagir, de ver todo um conceito daquilo que é moda que se faz mais abrangente, e de poder conjugar isso tudo e, ao mesmo tempo, levar para África essa transmissão de cultura, valores e princípios

 

O que é que a inspira no processo de criação das suas colecções?

Essencialmente, África. Inspiro-me sobretudo na mulher africana, aquela em que me consigo claramente rever. A mulher que, depois de tantos anos de guerra, se viu sozinha, sem marido e que teve que assumir o papel de chefe de família. Inspiro-me neste espirito de vitória, de mulheres guerreiras, que vão à luta. A moda é isso, poder transmitir toda uma história e aquilo que acontece diariamente na vida das pessoas. Em todas as colecções procuro passar um conceito, aliar a arte à cultura e ao estilo de vida. Nas passerelles, são 15 minutos de moda e estilo, mas que nos levam a viajar pelo mundo e a pensar como seres humanos. 

 

O facto de ter vivido em vários países tem algum tipo de influência na forma como vê a moda?

Com certeza. Não há nada isolado, tudo faz parte de um processo. Eu ter vivido em vários países, fez com que seja o que sou hoje. Acredito que nada é isolado, tudo acaba por contribuir para determinar as nossas opções e visões.

 

Já pensou em desvincular-se da cultura africana nas suas colecções?

Da cultura africana nunca. Esta é a minha cultura, é o que eu tenho para dar, é o meu suporte e acaba por ser a minha referência na marca Nadir Tati. Claramente que as colecções são, ou podem ser, adaptadas a um determinado momento ou país, mas a raiz está sempre lá.

 

Como é o seu processo criativo?

Não tenho um momento meu, um momento criativo, são vários momentos e às vezes surge numa ocasião em que não estou à espera. Às vezes estou à procura de um conceito e de uma mudança, de algo diferente, durante, digamos, um mês e não surge nada. E, de repente, sem esperar, surge tudo em catadupa. É um trabalho extremamente bonito e, acima de tudo, há um ponto que é muito importante: fazermos aquilo que gostamos e apercebermo-nos de que a nossa alma está presente no trabalho. Eu tenho esse privilégio de trabalhar naquilo de que gosto, de poder movimentar milhares de pessoas e, ao mesmo tempo, servir de incentivo e inspiração para milhares de jovens, não só em Angola como no resto do mundo. E isso é uma honra.

 

 

Sente-se embaixadora da moda em Angola?      

Claro. Depois de tantos anos, penso que existem poucas pessoas que entendem mais ou melhor do assunto do que eu. Sou a estilista mais internacional que Angola já teve, mostrei o meu trabalho em vários países africanos, na Ásia, na Europa, na Mercedes-Benz Fashion Week, estive nos óscares… É um currículo muito abrangente. Tenho vários prémios, quatro como criadora do ano, diva da moda, diva do ano… Neste momento, não se pode falar da moda de Angola sem se falar do meu nome e isso é bom, não no sentido de vaidade, mas do trabalho realizado e da qualidade deste.

 

O que é mais importante no processo criativo de um estilista, a criatividade ou a intuição?

Penso que é difícil de separar. A moda é muito emocional. Ponho-me sempre na posição de quem está a assistir ao desfile, do que é que essa pessoa sente, qual a mensagem que leva para casa. Podemos ter muito talento, muita criatividade, mas se não tivermos esse instinto, essas emoções, não podemos saber qual é o momento certo. É preciso que tudo se encaixe para podermos criar o momento certo, aquele em que todas as decisões têm que ser tomadas. Um minuto mais tarde ou mais cedo e tudo pode não funcionar.

 

Há traços que definem o seu estilo. Quais apontaria como mais marcantes?

Neste momento e sempre foi assim, aquilo que nos define é África. A marca Nadir Tati fala do continente africano, das mulheres africanas, das cores de África, que são fortes… e toda essa mensagem pode ser transmitida de várias formas. Mesmo numa colecção como a que apresentei na Moda Lisboa, algo escura porque estamos a falar de Portugal, um país que não usa muitas cores, mas que não deixa de ter os traços africanos ali presentes.

 

 

Foi a única estilista angolana na Moda Lisboa. Qual a importância deste evento para si?

Quando se fala do Moda Lisboa estamos a falar num evento importantíssimo para o continente europeu e para aquilo que é a moda no mundo inteiro, estamos dentro das seis semanas de moda que existem em vários países. Para mim, estar em Portugal é uma porta aberta para o mundo. É um evento com uma organização excelente, que nos dá a possibilidade de expandir e mostrar aquilo que é o nosso trabalho ao resto do mundo. Quando se fala em Moda Lisboa falamos essencialmente em artistas, os criadores que admiro muito, entre eles Dino Alves ou Nuno Gama. Cresci a ver o trabalho deles e estar com eles no mesmo evento é de extrema importância para mim. Por outro lado, a própria importância do Moda Lisboa em Portugal. É um evento com grande projecção, à semelhança das outras semanas da moda em Milão, Paris ou Hong Kong. Finalmente, sinto que um país inteiro gosta do meu trabalho. No desfile não há um único lugar vazio, a sala fica repleta e é um sentimento incrível, que eu tento retribuir com um grande espectáculo de moda.

 

Que países sente mais receptivos às suas propostas?

Sinto-me bem em qualquer lado. Penso que se decidisse abrir uma loja em qualquer parte do mundo iria funcionar, até porque, como se costuma dizer, África está na Moda. Penso que as pessoas querem ter algo desta cultura, só não conseguem, talvez, combinar. Esse é exactamente o meu trabalho: mostrar, dar opções e tendências, de modo a que alguém de tom de pele diferente consiga vestir algo africano.

 

Onde é que é possível encontrar as suas peças?

Neste momento, estamos apenas em Angola, mas queremos resolver essa questão muito rapidamente, tendo uma representação em Portugal, o que pode acontecer a qualquer momento.

 

 

Qual é a inspiração da colecção que veio apresentar à Moda Lisboa?

Apresentei uma colecção nova, criada para o Moda Lisboa, e que se chama “Caminhos da Alma”. Esta é uma colecção que simboliza o meu caminho, o caminho do povo Angolano, de uma nação que procura soluções para poder crescer e desenvolver-se. Acredito que a resposta para o progresso está nos jovens e que os caminhos a serem trilhados por eles devem ser abertos pelas entidades próprias. Estas devem dar opções àqueles que, sobretudo no mundo das artes, têm algum talento e que querem singrar. A educação é extremamente importante para este crescimento, ao mesmo tempo que os princípios, valores e hábitos que o nosso povo já possui. É importante o crescimento gradual, é necessário subir as escadas, passo a passo, para se chegar ao topo da montanha. São esses os caminhos a que me refiro. São os Caminhos da Alma, da minha e da do povo angolano que, actualmente pode não ter muita esperança, mas é importante acreditar. É esta a história da colecção, onde primeiro surge o preto e depois começa a mudar para o laranja e outras cores fortes cheias de esperança. Mas claro que não podemos esperar sentados, temos que contribuir de forma activa para o crescimento de Angola.

 

Quais são os seus projectos para o futuro?

Para já é importante a reorganização de toda uma estrutura, de todo um país que precisa de mim. Concentrar-me naquilo que é o factor de educação, nas aulas com crianças, na moda. Todos gostam de moda, mas a maioria não consegue lá chegar. O maior projecto será vestir Angola, ou seja, se este mundo até agora existe apenas para um grupo restrito, o meu objectivo é tentar que todos em Angola possam vestir uma t-shirt, uma camisa, umas calças jeans da marca Nadir Tati.

Fotos de Francisco Fonseca

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Directora/Editor in Chief | Revista Turbilhão