Pertence à sétima geração de uma família de perfumistas que cria algumas das fragrâncias mais luxuosas do mundo. Para Erwin Creed, a marca com mais de 250 anos de história é mais do que um negócio: é uma verdadeira paixão que lhe corre no sangue.

A Creed é considerada uma das marcas de perfumes mais luxuosas do mundo. O que a torna tão especial?

Na Creed temos o nosso laboratório, a nossa fábrica, os nossos próprios fornecedores de ingredientes naturais e exclusivos. Temos também a nossa história: há um nome e várias gerações por trás da marca. É mesmo uma verdadeira paixão! Acho que o universo da perfumaria não é muito diferente da alta relojoaria. Para se ter um bom relógio é necessário investir e, às vezes, é preciso esperar e ponderar até se chegar ao que realmente se quer. Mas quando finalmente conseguimos, sabemos que a nossa escolha se vai revelar certa ao longo do tempo.

 

Pela forma como fala, dá para perceber que adora o que faz…

Sim, adoro.

 

…e que é um apreciador do luxo.

Sei o que é o luxo e adoro o luxo clássico. Não gosto de show-off.

 

Voltando aos perfumes, de que modo o vosso processo de produção difere do de outras marcas?

Na maioria das marcas trabalha-se atrás de uma secretária: dão-se instruções para se enviar dez quilogramas da base e do concen­trado para a fábrica dos frascos. Depois junta­-se tudo, enchem-se os frascos e envia-se para todo o mundo. Nós fazemos de maneira diferente. Recebemos tudo na nossa fábrica, desde os frascos aos ingredientes para criar a nossa base. Como temos um laboratório, faze­mos os nossos próprios testes. É um processo demorado. Por exemplo, quando recebemos os ingredientes, levamos uma semana a ava­liar se têm a qualidade necessária para serem utilizados. A produção é 30% mais lenta, mas o resultado é perfeito, porque há um grande foco na qualidade, em fazer as coisas bem, e o processo é muito manual. Na Creed sabemos que o perfume é muito importante, que é parte de quem somos.

 

Onde encontra as melhores flores?

Depende. Sem dúvida que é importante ter as melhores flores, mas é igualmente importante termos os melhores fornecedores, porque se estes não forem realmente bons, quando as flo­res chegam até nós o aroma já não é o mesmo. As flores são um produto muito delicado. E posso dar um exemplo: comprávamos mimo­sas no Sul de França, e quando chegavam para a destilação nem sempre vinham perfei­tas, porque, para ser mais rápido, o transporte não era feito nas melhores condições. Hoje orgulhamo-nos de ter excelentes fornecedores em diversas partes do mundo. Por exemplo, as rosas usadas nos nossos perfumes vêm da Bulgária e da Turquia: a rosa búlgara é melhor nas notas pretas e médias; a turca é mais leve e pode-se misturar a conexão entre o topo e o médio, dependendo da fragrância que se pre­tende atingir.

 

O aroma é algo muito pessoal, mas o Erwin e o seu pai tiveram sucesso em traduzi-lo numa série de fragrâncias que as pessoas adoram. Como conseguiram fazê-lo?

Um bom perfumista faz algo leve, mas tam­bém algo forte e oriental ou adocicado. Tem de haver uma variedade de aromas. O facto de não estarmos em todo o lado dá-nos mais exclusi­vidade, o que se traduz numa maior confiança por parte do cliente quando usa um perfume Creed. Como se de uma pintura se tratasse, queremos dar aos nossos clientes algo espe­cial, que lhes proporcione um bom sentimento. A qualidade tem de ser a prerrogativa. Quere­mos fazer algo verdadeiramente bom, não um produto de sucesso de marketing.

Como são seleccionados os pontos de venda Creed?

Seleccionamos criteriosamente os espaços onde estamos, e acho pre­ferível ter um bom corner no sítio ideal do que estar em muitas lojas. Por isso reduzimos os pontos de venda e reforçámos muito a presença em espaços exclusivos. Estamos focados em manter a nossa reputação. Para nós, qualidade é mais importante do que quantidade, por isso prefiro vender menos a quebrar a imagem da marca.

 

Fazendo uma comparação com a música, devemos ouvi-la num volume baixo para manter a audição apurada. Na perfumaria, em vez da audição utiliza-se o olfacto. Como se apura este sentido?

É precisamente como na música: se começamos o dia a ouvir Hard Rock muito alto, vai ser difícil escutar algo mais leve ao final do dia. Na perfu­maria, todas as decisões têm de ser tomadas de manhã, depois de um pequeno-almoço leve e sem bebidas com sabores fortes. À noite o nariz está mais ‘poluído’. Também se deve começar sempre pelos perfumes mais leves, fazendo intervalos entre eles.

 

O que o desperta para criar uma nova fragrância?

O meu elemento favorito é o ingrediente e, por vezes, também as pessoas. No Médio Oriente gostam muito do Oud, e sempre que entravam na loja era o único perfume que queriam. Decidi, então, fazer uma reinterpreta­ção mais ocidental, que agrade, também, a um outro público.

 

Recentemente lançaram o Aventus para senhora. Porque sentiram a necessidade de criar uma versão feminina desse aroma?

Neste momento, temos mais perfumes masculinos do que femininos, mas queremos alcançar um equilíbrio na oferta de ‘50-50’. Precisámos de mostrar ao universo feminino que fazemos bons perfumes. Também achámos que estava na altura de lançar algo mais comercial. Somos uma boa marca, mas os clientes querem sempre mais inovação.

 

Qual é o seu tipo de perfume?

Não uso perfume diariamente, mas quando uso, uso tudo [risos].

 

É a sétima geração da família. Que memórias e sentimentos guarda da sua infância e juventude?

Cresci com o Romano Ricci (também de uma família de perfumistas), que tem mais três anos do que eu: era o meu ‘irmão’ e é o meu melhor amigo. Lembro-me que fazíamos corridas e motocrosse. Quando era mais novo, não estava completamente envolvido no negócio. Não queria fazer a mes­ma coisa que o meu pai e estava mais focado em mostrar que podia fazer algo diferente. Mas depois, aos poucos, fui percebendo a essência da marca, a sua força e tradição, e seria tolo se não lhe desse continuidade. Hoje tenho demasiado Creed em mim [risos], está-me no sangue. Estou envolvido em tudo e luto diariamente porque quero manter a reputação que temos hoje. É uma grande responsabilidade.

Texto deCompanhia das Cores e Marina Oliveira
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A Turbilhão é uma revista semestral, especializada na área da Alta Relojoaria e do Luxo.