Rodeado de arquitectos desde que se conhece, Frederico Valsassina haveria de cruzar-se “naturalmente” com plantas de edificação e desenhos técnicos. Actualmente assina projectos de referência, de diferentes escalas, em áreas tão diversas como a reabilitação, equipamentos ou turismo

A arquitectura esteve sempre muito presente na sua vida. Mas de que forma surge a paixão por esta área multidisciplinar?

Eu nasci numa família de arquitectos! O meu avô materno, a quem estive sempre muito ligado sentimentalmente, era o Arquitecto Raúl Tojal, e grande parte dos seus amigos, como Keil do Amaral, Adelino Nunes, Faria da Costa e Jorge Segurado, também eram arquitectos. Vivíamos em Colares, no Bairro dos Arquitectos, construído por eles. Portanto desde tenra idade que ouvia falar sobre arquitectura. No fundo, a minha paixão pela arquitectura advém de uma consequência natural da minha maneira de ser e do enquadramento socioeconómico que a minha família do lado materno apresentava.

 

E como nos apresentaria o seu percurso profissional?

Sem rodeios, posso dizer que o meu percurso de arquitecto foi feito de oportunidades que foram surgindo de uma forma natural. Quando finalizei o curso dos liceus entrei para o curso de Pintura/Escultura da Escola Superior de Belas Artes em Lisboa, transferindo-me, uns anos depois, para o curso de Arquitectura, que termino em Julho de 1979. Já licenciado, colaboro com vários ateliers, e crio o meu próprio gabinete nos finais dos anos 80.

 

Assume que a abertura e a proximidade dos seus projectos à comunidade e ao passante são um factor essencial e transversal a todos os espaços que projecta. De que forma esta abordagem influencia a sua arquitectura?

Não concebo “fazer” arquitectura isolada da realidade. Esta disciplina é, e será sempre, para ser vista, utilizada e julgada pela comunidade onde se insere. Quanto mais integrada, melhor responde ao meio onde está incorporada, qualquer que seja a sua dimensão.

 

Qual é, então, o papel que atribui à arquitectura enquanto elemento de valorização dos espaços e das experiências que proporcionam?

Considero que não é o sítio que faz a arquitectura, mas sim a arquitectura que faz o sítio. O seu enquadramento ligado à poética do sítio e a necessidade da fácil apreensão dos novos espaços pelos seus utilizadores serão garantes de um bem-estar geral.

HERDADE DO FREIXO

E, relativamente ao universo do enoturismo, de que forma a arquitectura pode aportar valor a estes projectos?

No caso do enoturismo, é essencial perceber e estudar o processo de produção e cruzar a funcionalidade com a qualidade dos espaços onde se insere.

 

No caso concreto da Adega Herdade do Freixo (2016), situada no Redondo, vencedora do Prémio Construir 2017, da Menção Honrosa Premis FAD 2017, e ainda galardoada pela Archdaily como Building of The Year 2018, na categoria de Industrial Architecture, o que era importante perceber antes de se avançar para o projecto?

A Herdade do Freixo apresenta-se como uma paisagem tipicamente alentejana, ondulante, diversificada e com interessantes pontos de vista sobre a envolvente. Pontuada por aglomerados de zambujeiros, oliveiras e azinheiras, concentra ainda numa das suas elevações um Monte, identificado por construções tipicamente rurais que o definem. A morfologia do terreno existente foi, assim, determinante para a definição do projecto, tornando-se imperativo mantê-la inalterada, ainda que sujeita a uma intervenção com este volume de construção. Toda e qualquer intervenção não poderia pôr nunca em causa o equilíbrio encontrado no local.

HERDADE DO FREIXO

De que forma se conseguiu respeitar esse equilíbrio?

A Adega surge na continuidade da paisagem, fundindo -se com toda aquela extensão. O cruzamento funcional, a relação interior/exterior e natural/artificial denunciam a existência de um pressuposto interior, com o qual não temos contacto visual imediato. Surge como um acidente artificial, cujo anonimato se vai perdendo à medida que se percorre, permitindo circuitos diferenciados que se cruzam no cerne da intervenção, o pátio central, elemento aglutinador de todas as circulações. Apostou-se numa transição fluida e sequencial dos espaços que se pretende que comuniquem física e visualmente. Estes sucedem-se, proporcionando, à semelhança do que acontece na topografia da herdade, vistas sobrepostas, diversificadas, que indiciam que existe mais para além do que está directamente ao nosso alcance. A linguagem depurada das formas arquitectónicas tira assim partido do efeito cénico do edificado, cativando o visitante e convencendo-o a percorrer a totalidade dos espaços, de modo a perceber-se o todo e entender a hierarquização funcional entre eles, distinguindo e individualizando cada uma das zonas industriais e sociais que o compõem.

 

E no que respeita à funcionalidade do espaço?

Na produção, a opção de enterrar a Adega, projectando -a em vários pisos a mais de 40 metros de profundidade, permitiu que se utilizasse a força gravítica no processo de vinificação, respeitando assim as massas vínicas e utilizando as mais avançadas e inovadoras técnicas de enologia. Foi ainda possível, por este motivo, criar as melhores condições térmicas para a conservação dos vinhos, dada a redução da amplitude térmica e aos valores baixos de temperatura.

 

Falando agora de reabilitação, área na qual o seu nome é uma referência incontornável, como vê a reabilitação urbana enquanto forma de prolongar o tempo e de tornar as cidades apetecíveis para as novas gerações?

A manutenção de edifícios cria não só um espaço de memória, mas um respeito pela história e desenvolvimento das cidades, assumindo-se como projectos muito desafiantes. Aliás, o desafio da reabilitação é inesgotável, pois cada edifício é sempre um caso único, não repetível, e as dificuldades que nos apresentam pouco têm que ver com a escala e complexidade do projecto.

 

Há algum projecto que destaque nesta vertente?

Sem dúvida as reabilitações do quarteirão da Avenida da Liberdade com a Rua Rosa Araújo e o edifício da Avenida da República nº 37, que foi considerado a melhor reabilitação do ano de 2017. Estas duas reabilitações, para além do respeito pela memória das pré-existências e do local, conseguiram criar “um habitar” consentâneo com a presente época.

 

Quais os grandes nomes da arquitectura que serão sempre uma referência para si?

Num universo mais distante, é inquestionável a influência que teve o trabalho de Mies Van de Rohe. Num universo próximo, sou um apaixonado pela arquitectura de Siza Vieira.

Texto deCompanhia das Cores
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A Turbilhão é uma revista semestral, especializada na área da Alta Relojoaria e do Luxo.

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