“Competitivo por natureza”. É assim que Filipe Albuquerque se descreve quando entra na pista de corrida. Actualmente a competir no campeonato norte americano de resistência, no European Le Mans Series e no campeonato mundial de endurance da fia, o piloto de automóveis, que tem em Ayrton Senna a sua inspiração, revela que a dedicação e o esforço são fundamentais, mas irrelevantes sem talento. 

De Coimbra para o mundo, com muitos prémios e conquistas na sua carreira. Sente que está a contribuir para um legado “nacional” na modalidade de automobilismo além-fronteiras?

Quero acreditar que sim. Todas as vitórias e todos os títulos levam-me a crer que sou e serei parte da história do automobilismo nacional. E esse sentimento é muito bom, porque valoriza o trabalho, o talento e todo o esforço. Muitas vezes as vitórias constroem-se de derrotas, e saber que depois de tudo há reconhecimento, é muito bom!

Como é que os pilotos portugueses são vistos lá fora?

Neste momento, como somos cada vez mais no mundo do desporto automóvel, somos vistos como pessoas de talento e de muito trabalho. Mas, claro, venho de um país pequeno, e nem sempre a bandeira que carrego é valorizada como devia. O facto de ser português não deveria condicionar o futuro profissional, mas, infelizmente, já fui penalizado por isso.

 

Ser piloto é um dom ou é algo que se treina?

Tem de haver sempre talento para se vingar nesta carreira, o resto depois aperfeiçoa-se com muito trabalho e dedicação.

O que o motiva para as vitórias?

Sou competitivo por natureza. Entro sempre para ganhar, dou o meu melhor e espero sempre obter o melhor retorno. Ganhar é viciante, portanto, depois de cada vitória só quero vencer outra e outra vez.

Há alguma com “sabor especial”? Porquê?

Há várias, mas as vitórias nas 24h de Daytona e nas 24h de Le Mans têm aquele “sabor especial”. São provas emblemáticas, que preencheram o meu imaginário durante anos e anos a fio. Quando estamos lá em cima, no lugar mais alto do pódio, é mágico.

 

Há alguma pista ou circuito pela qual tenha uma paixão especial?

Eu costumo dizer que a pista de que mais gosto é a pista onde ganhei (risos). São essas que me trazem as melhores memórias e das quais nunca me vou esquecer. Mas se tivesse que eleger uma, diria o circuito de Spa-Francorchamps, em Stavelot, na Bélgica.

Tem algum piloto ou ídolo que o inspira?

Eu cresci a ver o Ayrton Senna a ganhar muitas corridas na Fórmula 1. Ele foi um ídolo para mim. Queria chegar tão longe quanto ele, queria chegar à F1.

 

Visto como uma profissão de sonho, onde é que fica o “charme” e o espírito de aventura do piloto de automóveis perante o elevado grau de profissionalismo que é actualmente exigido?

É uma profissão de sonho que exige muito de nós, não só em termos físicos, mas também psicológicos. Exige total dedicação, foco e resiliência, não muito diferente de muitas outras profissões de alta competição. Acredito que é o imaginário de cada um que faz desta profissão o charme que lhe reconhecemos, mas não é o charme que nos torna vencedores, mas sim o trabalho árduo.

 

Tem algum “rival” de estimação?

Não, não tenho. Aliás, um dos meus rivais de há dois anos no Campeonato Norte Americano de Resistência é agora  meu companheiro de equipa e grande amigo, o Ricky Taylor. Nas corridas de resistência há muito isto: um dia rivais, no outro, colegas de equipa.

 

Há alguma história ou curiosidade que gostasse de partilhar?

Considero a história com o Ricky Taylor uma das melhores. Em 2018, a corrida das 24h de Daytona foi resumida nos últimos dez minutos. Eu estava em primeiro e o Ricky em segundo, mas um pouco mais rápido. Faltavam cinco minutos para o fim da corrida quando ele fez uma ultrapassagem, do meu ponto de vista optimista, e acabámos por bater. Com o embate, eu fiz pião e ele acabou por passar para primeiro. Tentei recuperar com o objectivo de o passar e vencer, mas a corrida acabou. Naquele momento, odiei-o e disse-lhe que na próxima vez que o encontrasse em pista que o ia “meter fora”. Entretanto resolvemos as nossas diferenças e opiniões, e, em 2021, fomos colegas de equipa e ganhámos as 24h de Daytona juntos. A vida é engraçada e dá muitas voltas.

 

Que significado tem a palavra tempo nas várias dimensões da sua vida?

Tem várias dimensões, que acabam por ser, muitas vezes, antagónicas. O meu trabalho é avaliado constantemente pelo cronómetro. Ao fim destes anos a aperfeiçoar milésimos de segundo em pista, para mim é natural medir o meu tempo ao segundo quando estou fora das pistas, mas, em simultâneo, gostava que o tempo fosse mais lento, para poder saborear melhor as coisas boas da vida, como estar com a minha família, em especial com as minhas filhas.

 

Afirmou numa entrevista que a preparação física “é uma questão mais emocional do que física”. Como é que se consegue esse equilíbrio?

Quando a parte psicológica acredita, o físico chega lá mais rápido. O equilíbrio consegue-se estando focado naquilo que é realmente necessário, sem desculpas e acreditando sempre que é possível.

 

Que papel têm a família e os amigos neste “equilíbrio”?

Têm um papel muito importante. O equilíbrio emocional, a estabilidade e o conforto vêm do papel que os “meus” têm na minha vida. Nos bons momentos, para me “ajudarem a manter os pés no chão”, e nos maus, para me “puxarem para cima”. Tudo tem o seu equilíbrio.

 

Tem algum hobby fora das pistas?

Depois de ser pai, o meu maior hobby é mesmo passar tempo de qualidade com as minhas filhas e com a minha mulher, que pode ser simplesmente um passeio com elas no parque.

 

O que lhe falta conquistar?

Em termos profissionais, não me posso de facto queixar muito. Mas, agora que aqui estou, e olhando numa perspectiva de curto prazo, gostava de ser este ano Campeão Norte Americano de Resistência. Em termos pessoais, estou muito feliz com as minhas conquistas: tenho uma família excelente e a profissão que escolhi. Não dá para pedir mais!

Por Companhia das Cores

A Turbilhão é uma revista semestral, especializada na área da Alta Relojoaria e do Luxo.

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