A recente reabertura da Mansão Cartier na 5ª Avenida em Nova Iorque esconde uma história que se tornou um mito. A da ambição de um Joalheiro e da paixão de uma mulher por uma jóia.

É à terceira geração da família Cartier que se deve verdadeiramente a internacionalização da empresa fundada por Louis-François, em 1847. Com Louis a gerir a Boutique da Rue de La Paix, em Paris, no início do século XX, o irmão Jaques assume a direcção do ramo Londrino com loja em New Bond Street, inaugurada precisamente no mesmo ano em que a marca se estabelece em Nova Iorque sobre a direcção de Pierre.

Estávamos em 1909, e os Estados Unidos beneficiavam ainda dos efeitos da “Gilded Age”, fruto de uma expansão económica, industrial e populacional sem precedentes. Cartier era então o primeiro joalheiro de renome internacional a instalar-se na América. A abertura da sucursal Nova-iorquina era o reflexo directo da actividade do joalheiro Dreicer & Co, cuja loja do nº 560 da 5ª Avenida fornecia a mesma elite de clientes da Cartier e tornara-se num concorrente de peso que fazia sentir a sua influência em Paris. Mas a empresa acabaria por fechar em 1923 no seguimento da morte de Michael Dreicer, filho do fundador, cabendo à Cartier a aquisição de todo o stock da empresa por 2,5 milhões de dólares.

Pierre Cartier instala-se no 4 º andar do nº 712 da 5ª Avenida, esquina com a Rua 56, de onde controla uma ascensão fulgurante em boa parte devido à ampla publicidade resultante da venda por 180.000 dólares do diamante Hope (45,52 ct) a Evalyn McLean Walsh, socialite e herdeira de uma fabulosa fortuna. Pierre Cartier tinha adquirido a gema apenas um ano antes por 550.000 francos (cerca de 100.000 dólares). Em consequência do sucesso, em 1912 as instalações começam a tornar-se exíguas, e Pierre Cartier necessita de um espaço de prestígio condigno para receber a elite Nova- iorquina. Durante 5 anos procura activamente um edifício que pudesse ombrear com a magnificência da Rue de la Paix em Paris e a New Bond Street em Londres até que, em 1917, a paixão de uma abastada cliente por uma extraordinária jóia abre a possibilidade de adquirir uma magnífica mansão localizada no coração de Manhattan.

Os Plant

Morton Plant, (1852-1918) era o tipo de pessoa de quem se dizia que tinha nascido em berço de ouro. Filho de Henry Bradley Plant, um industrial dos caminhos-de-ferro com mais de 14 empresas no sector e através das quais amealhou uma fortuna colossal, herda em 1899 um verdadeiro império dando inicio a uma vida faustosa com a sua mulher Nellie Capron. Magnata dos caminhos-de-ferro, activo no sector imobiliário e filantropo, Plant era um cavalheiro de gostos requintados. Não resistia a Iates, dos quais possuía vários exemplares, equipas de basebol, diversas mansões e um ou outro hotel. E, quando em 1902 decidiu que necessitava de uma nova casa, não olhou a despesas.

Nesse mesmo ano adquire ao multimilionário William K. Vanderbilt um lote de terreno na esquina da 5ª Avenida com a Rua 52, o local onde antes tinha existido um asilo católico destinado aos órfãos de Nova Iorque. Nos 3 anos que se seguiram, Plant e Nellie constroem uma mansão em mármore e granito com 6 andares e todos os detalhes elegantes ao estilo revivalista do renascimento italiano, tornando instantaneamente o edifico num verdadeiro monumento da “Millionaire’s Row.” Projectada pelo arquitecto inglês Robert W. Gibson, a mansão foi terminada em 1905, sendo nessa altura considerada pelo New York Times como a melhor numa área com diversos exemplos residenciais excepcionais. Um edifício que então, como agora, irradiava poder e fortuna.

Entretanto, a paisagem começava a mudar na baixa de Manhattan. As mansões de pedra castanha de John Jacob e William Astor na 5ª Avenida com a Rua 34 tinham sido substituídas já em 1893 pelas unidades hoteleiras do Waldorf e Astoria, seguindo-se em 1895 o St Regis e o Gotham. O primeiro edifício de escritórios é erigido em 1907, no nº 712 da Quinta Avenida, precisamente onde dois anos mais tarde se instala pela primeira vez Pierre Cartier. O comércio começava a avançar significativamente ao longo da Avenida, e na altura em que Morton Plant e a sua mulher Nellie se mudam para a nova casa, diversos moradores abastados começavam já a abandonar as suas casas, migrando mais para norte.

Mesmo assim Plant resistiu ao inevitável e, quando em 1911, a câmara de Nova Iorque ordenou que fossem retirados os jardins adjacentes à fachada da mansão para dar espaço à Avenida, o fácil acesso dos transeuntes mais curiosos às janelas do R/C da sala de estar não o dissuadiram a mudar-se. Até 1913, Plant e a sua mulher, Nellie, foram os anfitriões de jantares elegantes, festas e eventos sociais a que apenas os mais privilegiados tinham acesso. Mas a 8 de Agosto desse mesmo ano, e ao fim de 26 anos de matrimónio, Nellie Plant sucumbe à doença.

Pouco depois, Plant, então com 61 anos, conhece Mae Caldwell Manwaring, 30 anos mais nova e mulher de Seldon B. Manwaring. Menos de um ano depois da morte de Nellie, e apenas 1 mês após o divórcio de Mae, Plant anuncia o noivado. No mês seguinte o casal celebrava já o matrimónio na imensa mansão que Plant detinha em Groton, no estado do Connecticut. Os jornais viriam a comentar que Mae ficou bastante agradada com a prenda de 8 milhões de dólares.

Após o casamento em 1914, o casal muda-se para a Mansão da 5ª Avenida, então conhecida apenas por Morton Plant House e que ostentava o nº 563. Mas apesar do edifício representar uma autêntica barreira no avanço do comércio ao longo da 5ª Avenida, percebia-se que já não era possível travar durante muito mais tempo a marcha do progresso. E apesar de o industrial fazer estoicamente frente aos insistentes avanços do sector imobiliário que teimavam em fazer-lhe propostas de aquisição, em 1916 acaba por decidir ser inútil resistir. Nesta altura já a maioria das famílias tinha abandonado a 5ª Avenida abaixo de Central Park para novas moradas na Rua 59 deixando os Plant isolados, física e socialmente.

Nesse ano, quando Plant tinha já iniciado a construção de uma casa imponente ainda maior, localizada mais a norte na esquina da 5ª Avenida com a Rua 86, decide alugar a Mansão a Pierre Cartier. Tratava-se no entanto apenas de um aluguer e não de uma venda. É nesta altura que convergem as ambições, distintas, mas igualmente arrojadas, de Pierre Cartier e Mae Plant.

A troca

Na sociedade eduardiana, as pérolas, mais do que os diamantes e a platina empregues em jóias de perfil simétrico, eram um tesouro de valor imenso que definiam o extracto social de quem as usava. Eram consideradas o epitome da sofisticação e elegância das cabeças coroadas da europa assim como das classes abastadas que ambicionavam a um estatuto mais elevado. Para além do aspecto social, o seu elevado valor era também definido pelo facto de apenas uma pérola com qualidade gema ser descoberta em cada 25.000 ostras selvagens pescadas do fundo do oceano.

O objecto de desejo de Mae Plant, um colar avaliado então em 1 milhão de dólares (hoje, cerca de 16 milhões), e composto por duas fiadas a expedir com 55 e 73 pérolas finas (ou naturais) dos mares do sul, tinha sido exposto pela Cartier em Paris, Londres e, finalmente, Nova Iorque. Em 1916 a fabulosa peça, que levara anos a constituir, era amplamente noticiada levando a que muitas senhoras da sociedade fossem visitar a Cartier no nº 712 da 5ª Avenida apenas para a verem. Mae Plant, também conhecida por Maisie, era uma dessas senhoras e diz-se que foi amor à primeira vista.

A Senhora Plant queria o colar, o Sr Plant queria vender a casa e Pierre Cartier necessitava de assegurar uma morada de prestígio para os próximos 100 anos da Cartier. Mae Plant acabou por conseguir o seu colar e Cartier a sua Mansão, pelo que esta parte da história, que agora integra o mito Cartier, acaba com Morton Plant a fazer a sua mulher muito feliz. Diz a história que foi Pierre Cartier quem propôs a troca a Morton F. Plan. É que o preço de etiqueta do colar de 1 milhão de dólares equivalia ao valor da mansão da 5ª Avenida. Era mesmo um pouco mais cara, já que o edifício fora avaliado pelo New York Times em 1916 em 925.000 dólares. A Mansão passava assim para a posse da família Cartier por apenas 100 dólares, acrescido, claro, do colar de pérolas, garantindo ao joalheiro francês a posse de uma propriedade histórica que ainda hoje é a sua morada principal nos Estados Unidos.

Pouco depois de receber o colar, e já a residir na nova morada da Rua 86, Masie Plant posou para uma pintura de Alphonse Jongers onde usava a jóia. Uma interpretação desta pintura por Claudio Munro Kerr encontra-se agora pendurada no Salão Maisie Plant na renovada Mansão Cartier. Mas Morton Freeman Plant não viria a usufruir durante muito tempo da nova mansão da Rua 86, vindo a falecer a 4 de Novembro de 1918, pouco menos de um ano e meio após a venda da mansão a Pierre Cartier. Quanto a Maisie Plant, depois de ficar viúva, solteira e muito rica, voltaria a casar mais duas vezes antes de morrer em Julho de 1957, então com 75 anos de idade. O catálogo dos seus bens, publicado pelo leiloeiro Park-Bernet, tinha 313 páginas e os 1021 lotes que o compunham foram dispersos ao longo de duas semanas. Esperava-se uma receita de 1 milhão de dólares, sem contar com os 167 lotes de jóias de Masie Plant, entre os quais se encontrava o fabuloso colar vendido por Pierre Cartier.

A peça viria a ser adquirida por um desconhecido por apenas 151.000 dólares. É que o valor desta gema natural tinha caído precipitadamente com a entrada no mercado das pérolas de cultura após a revolução operada por Kokichi Mikimoto em 1916, e que influenciou negativamente o mercado durante as décadas de 1930/40. O destino das pérolas permanece ainda hoje um mistério, sendo possível que tenham sido separadas por fiadas ou mesmo dispersas pérola a pérola. Quanto à Mansão da Rua 86, ela seria demolida em 1960 e substituída por um aglomerado de apartamentos, hoje o nº 1050 da 5ª Avenida. Já a Mansão Cartier mantém-se, ironicamente, como um monumento da cidade de Nova Iorque.

Um monumento à Alta Joalharia

Com a aquisição da Mansão assegurada em 1917, Pierre Cartier contrata o conhecido arquitecto inglês William Welles Bosworth, para a transformar na Maison Cartier. Pierre tinha acordado com Plant que não iria modificar significativamente a fachada do edifício, pelo que para além da entrada principal passar da Rua 52 para a fachada da 5ª Avenida, e da abertura de vitrinas com detalhes em bronze e emolduradas por mármore verde à semelhança da Boutique de Paris, nada mais foi mudado. Quanto ao interior, após as obras de adaptação em 1917, o espaço ficou virtualmente inalterado.

O trabalho foi exemplar, e a qualidade do design mereceu mesmo a aprovação por parte do comité para a Harmonia Arquitectural da Cidade de Nova Iorque. O grupo, que faz parte da associação da 5ª Avenida e é conhecido pela sua sensibilidade em relação à estética dos edifícios localizados nesta zona, atribuiu à Cartier uma medalha de ouro. A Mansão voltaria a receber uma nova distinção quando a 14 de Julho de 1970 a comissão de preservação dos edifícios de referência da cidade de Nova Iorque reconhece a importância da construção atribuindo-lhe o estatuto de monumento oficial. Durante a sessão de deliberação da comissão, o presidente da Cartier à época, Michael H. Thomas, falou sobre o design e a história do edifício declarando que “Na Cartier, sentimos o ambiente e a elegância presente em cada canto desta casa que reflecte a integridade e a estabilidade que defendemos”. Mais tarde, já em 2001, a esquina da 5ª Avenida com a Rua 52 seria baptizada com o nome de “Place de Cartier” em honra da celebração do restauro do histórico edifício levado a cabo pelos arquitectos Butler Rogers Baskett, nesse mesmo ano.

A grande renovação 

A recente reabertura da Maison no passado mês de Setembro encerra a maior renovação na história da Cartier tendo sido necessários 5 anos de planeamento e dois anos e meio de obras entre demolições de interiores, reconstruções e decoração. Um trabalho que preservou integralmente a herança do joalheiro francês não descurando o estilo de uma grande mansão privada, tal como concebida originalmente por Plant, enquanto o espaço disponível quadruplicou passando de 800 m2 sobre 2 pisos para mais de 4000 m2 sobre 4 pisos.  

No interior, quase tudo foi feito à medida e por encomenda, entre 43 géneros diferentes de peles e tecidos, 35 estilos de mobília e 30 novos lustres concebidos segundo os modelos originais escolhidos pelo próprio Pierre Cartier em 1917. Acrescem nada menos que 110 antiguidades adquiridas e escolhidas pelo “Cartier Heritage Department” e Thierry Despont, o arquitecto responsável pela obra. Pierre Cartier viveu em Manhattan durante 35 anos e identificou-se bastante com o país e a cidade. Prova disso é o relógio encomendado por Cartier ao escultor de Brooklin, R. Bonet, em 1919, e que ornamenta a fachada da Mansão. Nele, é possível identificar um galo e uma águia, um símbolo da aliança Franco Americana.

E ao fim de quase um século e uma extensa renovação, o nº 653 da Quinta Avenida prepara-se para celebrar o seu centenário de forma brilhante em 2017. Para o efeito, a Cartier criou um colar de pérolas naturais inspirado no exemplar adquirido por Plant, e que se destina a celebrar a lenda da Mansão e a sua reabertura. O preço será apenas divulgado a pedido, mas deverá certamente refletir as quase duas décadas necessárias para reunir todas as pérolas que o compõem. 

Quando a Cartier se prepara para comemorar 100 anos de presença em Nova Iorque, já quase todas as grandes mansões privadas da 5ª Avenida construídas durante a “Gilded Age” foram demolidas para dar espaço a construções mais lucrativas. A última, foi a mansão dos Vanderbilt, demolida em 1945. Hoje, e a par com um único outro exemplo, a mansão de Henry Clay Frick, também situada na 5ª Avenida, a Mansão Cartier mantém-se majestosa e um marco de um tempo que já passou, transcendendo em muito a sua simples identidade comercial. Uma Mansão, cuja origem ficará para sempre ligada à paixão de uma mulher por uma jóia.

Horas joalheiras

Há mais de 150 anos que a Cartier oferece uma ousadia elegante nas peças joalheiras com que brinda o mundo. Uma audácia que nos últimos anos tem vindo a aliar a modelos relojoeiros que, além das extraordinárias capacidades técnicas, se revelam verdadeiras jóias. Numa aliança entre herança e tradição com modernidade e vanguardismo, a Maison dá, assim, vida a peças que aliam sublimemente os dois ofícios mais caros à Cartier: a relojoaria e a joalharia.

Desta aliança de génio nascem verdadeiras criações artísticas, pautadas por movimentos de excepção envoltos em pedras preciosas raras que dão vida a estéticas onde o famoso bestiário da Maison está muitas vezes presente. São, em suma, autênticos relógios-jóia, concebidos no espirito dos valores tradicionais da Cartier de criatividade, autenticidade e originalidade, cujo estilo distintivo se baseia em linhas puras e sóbrias e cores equilibradas, onde a flora exótica e formas felinas distintivas caracterizam as peças mais exuberantes.

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Carlos escreve como freelancer para diversas publicações nacionais e internacionais sobre o tema que sempre o fascinou, a alta-relojoaria. Uma área que considera ser uma porta para um mundo muito mais vasto, multidisciplinar e abrangente - uma fonte de informação cientifica, histórica e social quase inesgotável sobre quem somos e como aqui chegamos.