Sustentabilidade, materiais, as novidades para 2022 e as lições a retirar da pandemia foram algumas das questões abordadas pelo CEO da Panerai, Jean-Marc Pontroué, nesta entrevista à Turbilhão.

A Panerai possui um público muito envolvido e fez muito durante o COVID – como o PamCast – para encontrar novas maneiras de manter a comunidade envolvida. O que surgiu dessas conversas com o público?

A pandemia obrigou-nos a não viajar e esses 40% de tempo que despendíamos em viagens antes do Covid permitiu-nos ter mais distância e pensar duas vezes antes de tomarmos qualquer decisão. Por outro lado, descobrimos que podemos fazer negócio sem viajar tanto, realocámos as nossas prioridades e constatamos que só tínhamos que ouvir as necessidades das nossas comunidades.

O maior problema quando desenvolvemos produtos e iniciativas de marketing é que, normalmente, as ideias surgem quando viajamos, quando contactamos com outras culturas, pessoas e actividades. E isso deixou de acontecer com a pandemia. Por isso baseámo-nos no que a nossa comunidade tinha para nos dizer. E foi com base no feedback do nosso público que desenvolvemos o novo Submersible QuarantaQuattro. Foram os Paneristi que nos alertaram para essa “necessidade” de haver outro tamanho de caixa na nossa oferta Submersible, foi através das conversas que tivemos com aqueles que, muitas vezes, conhecem melhor a marca do que nós. Quando ouvimos as pessoas que gostam da marca, conseguimos perceber determinados aspectos ou necessidades que não somos capazes de ver porque estamos demasiado imersos no negócio. É por isso que adoro falar com todas as pessoas que são apaixonadas pela nossa marca e que são uma fonte muito forte de informação para nós.

Na sua opinião, como será a indústria relojoeira após a crise do COVID-19?

Em primeiro lugar, acredito fortemente que os “grandes” nunca estiveram tão fortes. Por outro lado, penso que todos os que estavam fracos antes da pandemia estão hoje mais fracos ou simplesmente saíram de cena. Acredito firmemente que todas as marcas que trabalharam bem, que possuem clientes locais, são as que passaram pela crise com menos problemas, e muitas outras que se concentraram apenas nos turistas não conseguiram fazê-lo. Em Portugal, por exemplo, as nossas lojas em Lisboa e no Porto continuaram a vender, apesar de o número de turistas ter diminuído drasticamente, o que prova que a marca é relevante para a população local.

Aprendemos muito com a pandemia, houve um aumento do negócio de comércio electrónico e o facto de alguns países terem perdido impulso, enquanto outros ganharam teve a ver com a forma como os países lidaram com a crise, quão rápido reagiram, quanta serenidade foi envolvida nas diferentes decisões dos diferentes governos, etc.

A sustentabilidade e a natureza sempre estiveram na base da Panerai. De que forma as encontramos na colecção deste ano?

Não se trata de uma tentativa de colocar a sustentabilidade na agenda da Panerai porque fica bem fazê-lo. Tudo começou através do nosso embaixador, Mike Horn. Quando temos embaixadores que estão próximos da natureza e nos alertam, o impacto desse alerta é diferente do que quando lemos nos jornais que o planeta está em perigo. Quando um deles nos diz que estamos em apuros se não mudarmos os nossos hábitos, percebemos a dimensão do problema.

Mike Horn referia-me constantemente a espessura do gelo por onde andava no Pólo Norte, onde ia com muita frequência. Dizia que houve anos em que, nalgumas áreas remotas do Pólo Norte, dava para aterrar um avião Antonov e que, actualmente, nas mesmas zonas, já nem ele pode andar sobre esse gelo porque a espessura diminuiu muito. Acreditamos que a Panerai é uma das marcas que tem que agir. Como CEO de uma marca tenho esse poder de fazer algo. Por isso, decidimos há três anos seguir o caminho da sustentabilidade e, hoje, felizmente, há muito mais marcas a assumir esse compromisso.

Submersible QuarantaQuattro eSteel

Na colecção deste ano, a natureza e a sustentabilidade traduzem-se em duas actividades diferentes. Primeiro, continuamos a difundir o eSteel na nossa linha com três modelos Submersible QuarantaQuattro nesse material. Aliás, posso já adiantar que o eSteel irá, nos próximos três anos, substituir todos os modelos em aço na nossa colecção. Há um ano acreditávamos que teríamos paralelamente o aço e o eSteel, mas, com base no que experienciámos nos últimos 12 meses, há alguns dias decidimos que, nos próximos três anos, 75% da nossa produção que hoje é em aço será transformada em eSteel.

A segunda questão tem a ver com as embalagens. Actualmente, cerca de 30% das nossas embalagens são recicladas. Isso significa que 70% ainda não são. Este Watches & Wonders apresentámos, como destaque, um novo conceito de embalagem, que se tornará a norma na nossa colecção. Assim, este ano teremos 50% de embalagens recicladas e, em 2023, 100%.

O que foi mais fácil e mais difícil para tornar essa questão prioridade?

O mais fácil é que se realmente quisermos fazer algo, conseguimos fazê-lo. Fazemos muitas coisas por rotina sem sequer pensarmos que temos hipótese de as fazer de forma diferente. Na realidade, o programa de reciclagem da Panerai é pensar que temos uma escolha e de que forma podemos fazer acontecer. Com a pandemia, deixamos de viajar, de sair das nossas casas, escritórios ou países e tivemos tempo para pensar mais do que antes. Como tornar esta questão uma prioridade em todos os níveis da empresa? Quando apresentei o programa pela primeira vez, todos os funcionários da Panerai foram impactados, até mesmo o pessoal de finanças. Como eles poderiam criar iniciativas para também contribuir para o nosso programa ecológico? Usando menos papel, mudando a forma de trabalhar, etc. Descobrimos que o nosso negócio nunca esteve tão forte sem viajar. Assim, respondendo à primeira parte da pergunta, é bastante fácil, desde que se transforme a sustentabilidade numa prioridade da empresa.

O desafio é que trabalhamos em muitos países onde nem todos possuem o mesmo sentido de prioridade na abordagem da reciclagem. Há quem ache que ainda podemos esperar 50 anos. Como criamos então um senso de urgência? Tivemos a questão do COVID que provou que há outras prioridades e que tivemos que relativizar outras porque o nosso mundo está cheio de prioridades. Como transformar a sustentabilidade numa prioridade? Relativizando outras que eram até agora prioridade, e fazer algo que é válido para americanos, chineses, portugueses, gregos, taiwaneses, etc.

Quão desafiador é obter os materiais certos e produzir essas peças?

É uma boa pergunta. No Verão passado viajei por Espanha e descobri um aeroporto repleto de aviões, que se tratava afinal de um estacionamento para aviões à espera de serem destruídos. Sabia que, actualmente, existem Airbus A380 que nunca foram usados e que são directamente destruídos? Isto porque as companhias aéreas não querem usar estes aviões porque consomem muita energia. Então, o que era muito utilizado ainda há três anos tornou-se um produto obsoleto porque as novas condições o tornam inviável. E o mundo, actualmente, está repleto de materiais que já não são utilizados. Eu moro na Suíça, que é o maior produtor mundial de café. Se achava que era o Brasil, não. É a Suíça por causa das cápsulas Nespresso que são todas produzidas na Suíça. Como tal, existe uma grande utilização de alumínio e possuímos um grande depósito de reciclagem de cápsulas Nespresso. Este é apenas um exemplo. Tudo o que fazemos na nossa vida actualmente é algo que podemos reutilizar muitas vezes.

Respondendo à sua pergunta, encontrar o metal certo não foi o desafio. O difícil é entrar em contacto com os fornecedores que não estavam habituados a trabalhar com a indústria relojoeira. Costumam vender milhões de toneladas de metal para carros, barcos, aviões… e quando somos a Panerai da indústria relojoeira suíça e precisamos “apenas” de algumas centenas de quilogramas, olham-nos com desconfiança. No entanto, quando nos apresentamos como Grupo Richemont temos outro peso. Como tal, posso avançar que outras grandes marcas do grupo irão anunciar em breve que também vão utilizar eSteel na sua oferta. É tudo o que queríamos quando há um ano anunciámos este material. Queríamos que fosse um ecossistema aberto, sendo que qualquer empresa, dentro ou fora do grupo, pode visitar a Panerai em Neuchâtel e perguntar tudo o que quiser sobre o nosso modelo de reciclagem e seguir o mesmo modelo de negócios para acelerar a mudança.

Submersible eLAB-ID

Ainda em território ecológico, a Panerai planeou originalmente criar um relógio feito de materiais 100% reciclados. O relógio ‘Submersible eLAB-ID‘ é feito de 98,6% de materiais recicláveis. Por que não 100%?

Foi a primeira pergunta que fiz aos nossos relojoeiros. Até porque é muito mais poderoso em termos de anúncio dizer que é 100% realizado a partir de materiais reciclados. A resposta é que custa muito mais ao ambiente fazer 100% do que 98,6%. O 1,4% que falta está associado a peças de reposição. Especialmente borrachas das protecções da resistência à água. Ou seja, se tivermos que produzir estas peças a partir de um material existente, custa muito mais em energia do que se começarmos do zero. Porque a reciclagem não é o único parâmetro que temos em consideração nos nossos cálculos. É também quanta energia precisamos para recriar um novo produto. Se usarmos mais energia num material reciclado do que se começarmos do zero então é preferível começar do zero. Esse 1,4% estava a consumir muito mais energia do que se utilizássemos materiais novos. Sei que em termos de publicidade não é tão impactante. Poderíamos tê-lo feito, mas com custos mais elevados para o meio ambiente.

Sendo este um projecto inédito com materiais à base de reciclagem, o que isso faz com o preço?

O preço é mais alto, mas sabe porquê? Basicamente porque aprendemos todos os dias. Quando aprendemos algo novo ou o testamos 100 vezes, perdemos tempo. Ainda hoje, na Panerai, perdemos muito tempo para encontrar soluções. Claro que com o que aprendemos todos os dias também começamos a ganhar algum tempo, mas ainda levará muito mais tempo. É por isso que se houver cada vez mais empresas a utilizar o eSteel, isso nos trará algumas aprendizagens, experiência e ganho de tempo, bem como outras inovações futuras.

A inovação de materiais tem sido a pedra angular da marca. Qual é o ingrediente mágico e o novo material de foco para 2022?

Continuaremos a ter o Carbotech, o Fibratech, o Goldtech, a platina… todas as ligas especificas da Panerai. Mas, este ano estamos muito focados no eSteel. Continuará a ser a construção de uma história de futuro.

Piccolo Due

No ano passado, a Panerai apresentou, pela primeira vez, um relógio feminino. Qual tem sido a resposta do público ao ‘Piccolo Due’?

Recebíamos mulheres nas nossas lojas, que geralmente acompanhavam os parceiros, para escolher um relógio para eles. Depois havia as que “roubavam” os relógios do parceiro e o usavam. Assim, sabíamos que existia um interesse, uma procura no mercado feminino por relógios Panerai. Por isso desenvolvemos essa colecção em 38 mm. Não a alterámos. Mantivemos a mesma caixa, tudo igual. Apenas alterámos o tamanho e um pouco do design, com o sistema de troca rápida de bracelete, pulseiras coloridas e mostradores que possuem uma abordagem mais feminina. A resposta tem sido muito boa. É uma das linhas que actualmente está sem stock e a minha prioridade é repô-lo nos próximos seis meses.

O que destacaria das novidades deste ano?

Este ano o foco é na experiência. É sobre tudo aquilo em que a marca é melhor e sabe mais. O destaque será a linha Submersible, a reciclagem – incluindo materiais e embalagens -, os materiais como o Carbotech. Destacaremos também o Luna Rossa porque temos orgulho em anunciar mais três anos de parceria com a Prada para a próxima America’s Cup.

Submersible Luna Rossa

Tudo isto encapsulado em experiências. Lançámos este conceito há três anos e foi um grande sucesso. Antes de mais porque ninguém morreu (risos). Todas as pessoas que levámos connosco trouxemo-las de volta em segurança. As experiências foram a minha maior prioridade porque temos muitas pessoas a querer viver estas experiências, criadas para os que sabem tudo acerca da Panerai, que visitaram a nossa manufactura ou boutique histórica em Florença, ou o estúdio de design em Milão… Então, o que lhes poderíamos oferecer mais? Estas experiências foram a resposta a esta questão e continuamos a tentar encontrar outras experiências, novos temas.

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