Um mergulho de 24 horas dedicado à ciência e conhecimento

Esta é a história de uma aventura científica e mergulho recorde num remoto paraíso polinésio. Um lugar onde milhares de garoupas mascaradas, seguidas por centenas de tubarões, se juntam em segredo uma vez por ano. A equipa de Laurent Ballesta quis ter um melhor conhecimento sobre o que leva estes peixes a esperar pelo dia exacto da lua cheia para se reproduzirem simultaneamente! Com a ajuda dos investigadores do CNRS em Moorea, fizeram diversos mergulhos e conduziram inúmeras experiências para estudar e testemunhar este fenómeno único. Aproveitando este período incrivelmente rico, Laurent Ballesta fez um mergulho recorde de 24 horas.

São três da tarde e o sol brilha sobre a água turquesa. Estou sentado no pontão de um barco semi-rígido e preparo-me para mergulhar durante 24 horas. Pela primeira vez na minha vida, antes de entrar na água, posso dizer “Adeusinho e até amanhã” aos meus companheiros.

_MG_5430E é quando realmente o digo que avalio a extensão da minha loucura: Vou mesmo mergulhar durante 24 horas, e não vou emergir da água antes desta mesma hora amanhã. Estou totalmente determinado. (…)

Nada é mais importante do que o tempo quando se trata de resolver o “mistério das garoupas”. É um mistério ao mesmo tempo subtil e complexo. O que espero testemunhar é o encontro de todas as garoupas mascaradas (Epinephelus polyphekadion) no atol de Fakarava, a 490 km nordeste do Taiti. O encontro tem lugar nesta localização única que liga a lagoa ao oceano: um canal que forma uma fenda na barreira de recifes de coral, um pequeno portão entre a vasta lagoa e o maior oceano do mundo. Nesta indentação, as correntes são violentas mas previsíveis: seguem a maré e a lagoa, enchendo e vazando a cada seis horas. Os animais vivem de acordo com este ritmo.

Panorama de 6169 … 6180Uma vida intensa como em nenhum outro lugar, no meio de acordos de coabitação nem sempre simples. Viver aqui é tão benéfico como perigoso: comer sem ser comido, enfrentar os predadores de modo a conseguir reproduzir. O canal acelera todos os processos. Do tamanho de dois ou três campos de futebol, esta área é oceano puro concentrado. Um desfiladeiro paraíso, e uma armadilha para garoupas com a chegada em massa de tubarões cinzentos dos recifes. Porquê vir aqui reproduzir-se? O canal apresenta a forma de um funil, ideal para uma emboscada. Na realidade, as garoupas não têm escolha: vêm em busca da única corrente forte o suficiente para disseminar os seus ovos pelo oceano, da mesma forma que as flores precisam do vento para disseminar o pólen.

Estou debaixo de água há apenas três horas a observar cardumes de garoupas: o maior encontro de sempre, com cerca de 18.000. São seis da tarde e a luz começa a desvanecer. À superfície o sol deve estar a pôr-se. A noite caiu e tenho 12 horas de escuridão pela frente. Os peixes mudaram de cor. Vestiram realmente os pijamas, dada a incrível diferença na sua indumentária do dia para a noite.

Meia-noite, e as garoupas dormem há seis horas. Estão escondidas da forma como podem. São tantas que não há fendas suficientes no recife para as abrigar a todas. E os tubarões patrulham a zona. Johann, um especialista em tubarões, fez repetidas contagens quase todos os dias desde que chegámos. Ele acha que existem cerca de 700 no canal. A água está eléctrica. Durante o dia, o turbarão está calmo e descansa na corrente. Sabe bem que as garoupas são muito rápidas. O tubarão aguarda o momento ideal, depois do cair da noite, quando as garoupas são forçadas a descansar. Os tubarões já não estão em águas abertas. Desceram e amontoam-se às centenas no fundo do mar.

Yanick juntou-se a mim por algumas horas com a sua câmara especial de câmara lenta Phantom, capaz de tirar 1000 imagens por segundo. Um frenesim violento e caótico explode perante ele. Mas a mesma cena, quando vista em camara lenta, irá mostrar-nos a eficiência e precisão do ataque dos tubarões. Devoram as garoupas às centenas, talvez aos milhares: outro factor que agudiza ainda mais o nosso “mistério das garoupas”. Parece que o encontro todavia funciona, que este campo de reprodução vale a pena apesar dos riscos e que as garoupas conseguiram resolver a equação entre sacrifício e beneficio a seu favor
(…)

A corrente inverte uma última vez e começa a entrar na lagoa, ao mesmo tempo que me deixo levar por ela. São quase três da tarde e a aventura está quase a terminar. Estou debaixo de água há mais de 23 horas. Os minutos finais aproximam-se, mas não tenho pressa que acabe. A lua-cheia chegou finalmente, o dia em que as garoupas se devem reproduzir. Desde os primeiros minutos deste mergulho uma coisa parece óbvia: o ecossistema mudou. Os fuzileiros, um tipo de sardinha tropical, apareceram às dezenas de milhar. Estes também sabem que algo vai acontecer. A excitação das garoupas também é inusual, mas depois de semanas de confrontos, uma certa organização espacial estabeleceu-se.
(…)

DSC_1179 repro des m‚rous horizontal allong‚E de repente, tudo acontece! Grupos de garoupas disparam e a reprodução começa realmente, embora infelizmente muito longe e rápida para podermos ver os detalhes. Os fuzileiros, cada vez mais, bloqueiam o horizonte. A nuvem de ovos e sémen começa a aparecer e os fuzileiros apressam-se a engoli-la. Reina o pandemónio no fundo do canal. As garoupas saltam aqui e ali, enquanto os fuzileiros estão em todo o lado e os tubarões mergulham na confusão mas reemergem de “mãos vazias” a maioria das vezes. O acto dura menos de um segundo e não tenho tempo sequer para compreender o que está a acontecer. Duas coisas, contudo, parecem certas: é sempre um grupo de cerca de uma dúzia de garoupas que salta do fundo do mar, nunca um único casal; e é a anarquia, as leis da sobrevivência do mais forte, que parece prevalecer.

(…) O “mistério das garoupas” permanece intacto. Semanas de luta, mas quando chega a hora da reprodução, não se parece aplicar qualquer regra: todos os machos, vencedores e vencidos, saltam em direcção à fêmea que coloca os seus ovos e todos parecem ter a mesma oportunidade de a fecundar. (…)

Uma vez mais, Yanick está no lugar certo à hora certa. Aponta a sua câmara especial a uma sessão de reprodução estupenda, um momento da vida que dura apenas um segundo, mas um segundo que mais tarde se tornarão 40 segundos com a magia da câmara lenta. E em câmara lenta tudo se torna claro: é óbvio que na realidade apenas um macho inicia a cerimónia de acasalamento com a fêmea, segurando-a corpo a corpo o máximo de tempo possível. Na verdade, não ganhou direitos exclusivos, apenas a hipótese de ser o primeiro da fila, porque os outros machos já convergem para o casal. Este ser privilegiado é o macho dominante, cujo estatuto é o derradeiro prémio depois de quatro semanas de batalhas implacáveis. E tem apenas o benefício desta liderança curta que lhe permite satisfazer-se antes dos outros machos oportunistas avançarem e inundarem o palco com o seu sémen, mas um microssegundo tarde demais.

_AJC5291Esta foi a chave para perceber o “mistério das garoupas”: uma hipótese de observar in loco como tudo funciona por uma fracção de segundo e descobrir, graças à câmara lenta, a existência de uma hierarquia, fugaz mas respeitada, prova de uma organização meticulosa, embora invisível a olho nu. Passei 24 horas debaixo de água quando na realidade tudo se tornou claro numa fracção de segundo! Gosto de pensar que foi necessário, que devemos levar o nosso tempo se desejarmos capturar o momento.
(…)

 


2 - Fifty Fathoms Collection_1 - Bathyscaphe_2 - Pictures_1 - 5000-0240-O52A PRBlancpain Fifty Fathoms

Foi o Fifty Fathoms, o primeiro relógio de mergulho moderno, que estabeleceu a íntima ligação da Blancpain ao oceano. Hoje, a marca é uma apoiante fervorosa das iniciativas de protecção dos oceanos, através do Blancpain Ocean Commitment, um compromisso manifestado através do apoio e parcerias com organizações e os seus projectos, incluindo as Expedições Gombessa de Laurent Ballesta.


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