BUREL FACTORY

Fomos à procura dos produtos ambientalmente mais responsáveis. Saber fazer em português, para tornar o mundo num local melhor.

O Burel é nosso! Feito exclusivamente com lã de ovelhas da Serra da Estrela, é um produto 100% natural, reciclável e incrivelmente versátil, com excelentes propriedades térmicas, de impermeabilidade, isolamento acústico e resistência ao fogo…  Serve para fazer echarpes, casacos, capas, bolsas, sapatos, ténis e sacolas, para além das tradicionais mantas que nos aquecem nas noites mais frias. Na arquitectura e decoração utilizam-no em cortinados, painéis de parede, cabeceiras de cama e até em tapetes, mas, como somos um pouco ingratos, este tecido quase milagroso – afinal, nem sequer deixa borbotos! – esteve quase a ser votado ao esquecimento, colocando até em perigo o modo de vida de muitos pastores serranos. Em boa hora a recuperação da Burel Factory, na Vila de Manteigas, deu-lhe uma nova vida e hoje podemos afirmar que o Burel está de volta. E na moda.

Necessitamos urgentemente de mais produtos assim, com uma baixíssima pegada ecológica, porque o panorama não é animador: a indústria têxtil é responsável por 10% das emissões de carbono em todo o mundo, e é a segunda maior consumidora de água. Cerca de 60% de toda a roupa é fabricada em tecidos sintéticos, pelo que a cada lavagem libertam-se milhares de micro-fibras de plástico que vão directamente para os oceanos e se infiltram na cadeia alimentar. Um relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza estima que serão perto de 500.000 toneladas ano, o equivalente a 50 mil milhões de garrafas de plástico. O poliéster emite duas a três vezes mais carbono do que o algodão, mas este também não é solução. Pelo menos, não como tem vindo a ser explorado, onde uma única t-shirt básica consome 2700 litros de água no fabrico. Nuns jeans o valor dispara para os 7600 litros, pelo que não é difícil compreender que o caminho não é este. Felizmente existem alternativas mais sustentáveis, e muitas em Portugal. Vamos procurá-las…

Comecemos por calçar um par de ténis Nae Vegan Shoes. Estas sapatilhas de correr, unissexo, em PET reciclado, são bonitas, confortáveis e amigas do ambiente – perfeitas para começar a nossa exploração. Quando a Nae – No Animal Exploitation – nasceu, em 2008, a ideia era adaptar os princípios do veganismo à indústria do calçado e, desde então a boa conduta ambiental está no centro de todas as decisões. A marca oferece calçado e acessórios para homem e mulher, feitos exclusivamente com materiais sustentáveis, como o Piñatex, criado a partir de folhas de ananás, cortiça, algodão orgânico, couro vegan (sem pele de origem animal) ou RPET, reciclando o plástico que encontramos nas garrafas. Assim se previne que acabe no mar e se crie ainda mais plástico novo.

No mundo, hoje em dia, produzem-se qualquer coisa como 20 mil milhões de novos pares de sapatos por ano, na sua esmagadora maioria sem qualquer preocupação ambiental, baratos e de fraca qualidade, pelo que não demoram muito até terminaram num qualquer aterro – ou pior. Pelo contrário, a Mariano Shoes, marca familiar já na quarta geração, continua a produzir sapatos à mão, como sempre foram desde 1945, e com os melhores materiais para que possam durar uma eternidade. E mesmo quando algo se estraga o foco estará na recuperação, não na substituição. É fácil perceber a diferença entre estes dois paradigmas, ainda para mais porque a Mariano só utiliza matérias-primas com reduzido impacto ambiental e todas as embalagens são feitas a partir de materiais reciclados.

Muito do sucesso da chamada fast fashion depende precisamente dos consumidores não se questionarem excessivamente sobre a origem dos produtos, ou a razão para estes serem tão baratos, mas isso, a ISTO não está disposta a aceitar. A marca oferece básicos intemporais – t-shirts, malhas, camisas, calças ou calções – para homem e mulher e no site faz questão de mostrar a lista de fornecedores, as fábricas (todas nacionais), o número de empregados, a que se dedicam ou as certificações que possuem. Acrónimo de Independent, Superb, Transparent, Organic, a ISTO leva o compromisso um pouco mais longe ainda e desconstrói o valor de cada peça, das matérias-primas à mão de obra, logística, transporte bem discriminados, com o custo real somado ao lado do preço final. Maior transparência era impossível.

NAE

De regresso a casa, é tempo de descalçar sapatos e pisar um tapete feito com sobras da indústria têxtil. O Upcycling está na moda – mais um estrangeirismo entrou para o nosso léxico -, mas a ideia não tem nada de particularmente novo. Os nossos antepassados já o faziam, e um bom exemplo são os tapetes multicoloridos das nossas infâncias. Foram a inspiração para Christelle Rasteiro fundar a Saudade Design: “O desperdício mais bonito é aquele que nunca chega a ser”, afirma esta francesa, filha e neta de portugueses, e o nome escolhido enfatiza a manufactura 100% nacional e tradicional destes tapetes. Alguns são realmente vintage, feitos com desperdícios nas décadas 50, 60 e 70 do século passado, mas na sua maioria a matéria-prima é mais actual, e os modelos – Comporta, Nazaré, Sintra, Évora e Tavira – são perfeitamente customizáveis, na cor e tamanho.

Também a Torres Novas 1845, a marca de turcos mais antiga do país, acaba de criar uma colecção totalmente orgânica, com algodão cultivado sem pesticidas, nem químicos, e com muito menos água consumida durante o fabrico. Mas com toda a grossura e suavidade que fizeram a fama desta casa centenária. As toalhas Mira – é esse o nome da colecção – foram inspiradas nas aldeias e vilas alentejanas, pelo que são brancas, com viés colorido, como as casas caiadas.

A nossa viagem podia ainda continuar por nomes como a Zouri, Näz, Buzina, Not Yet Famous, We The Knot e muitas mais, mas depois de um reconfortante banho (embora curto, para poupar água) há esperança em perceber como o saber fazer, em português, está bem vivo e ambientalmente empenhado!

A área do Lifestyle tem muito poucos segredos para Bruno Lobo, jornalista com mais de 15 anos de experiência. Da moda aos automóveis, da relojoaria à tecnologia, da gastronomia à beleza. Porque “a vida é bem mais agradável com estes pequenos grandes prazeres”. GQ e Fora de Série são duas revistas onde o seu cunho se sentiu mais forte, mas já colaborou com várias revistas nacionais e internacionais, incluindo a Turbilhão, “com enorme prazer por poder contribuir para este projecto editorial”.