Ao falar de música clássica, de forma quase automática, somos transportados para auditórios grandiosos numa ode à arquitectura triunfal. Contudo, nem só com salas estrangeiras pode o leitor ficar deslumbrado, pois existem espaços magníficos, à vista e à audição, aparentemente ocultos diante dos nossos olhos.

No coração de Lisboa, em plena Avenida de Berna, podemos encontrar um dos salões mais nobres da cidade. É com linhas sóbrias e solenes que o Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian nos recebe. O edifício sede foi projectado pelos arquitectos Ruy Althouguia, Pedro Cid e Alberto Pessoa, do qual o Grande Auditório reflecte uma arquitectura contemporânea, simplista e racionalista.

Ao entrar, os tons de madeira captam a atenção, mas é o palco com vista para o lago que dignifica e complementa o espaço. Com capacidade para cerca de 1200 pessoas, o Grande Auditório teve a sua inauguração em Outubro de 1969 com a Orquestra de Câmara Gulbenkian, e coro do mesmo nome. O grupo, conhecido desde 1971 por Orquestra Gulbenkian, está instalado de forma permanente na fundação, e o auditório é palco da temporada anual Gulbenkian Música. De paredes impregnadas de história, o salão pode ainda ser usado para projecção de cinema e enquanto sala de conferências, tendo por lá já passado personalidades como Mikhail Gorbachev, Muhammad Yunus ou Joseph Stiglitz.

Por seu turno, agora rumo a Belém, é nesta zona emblemática da cidade onde encontramos o Centro Cultural de Belém. Aqui nasceu em 1992 o edifício que iria albergar a primeira presidência portuguesa da, então, Comunidade Económica Europeia. No entanto, o Grande Auditório não era considerado essencial à presidência e só abriu em Setembro de 1993, seis meses após a inauguração oficial do CCB. Foi o consórcio de Manuel Salgado e Vittorio Gregotti quem idealizou o CCB e o seu Grande Auditório, sendo que estes acolhem os visitantes com uma arquitectura simples, organizada e precisa; um conjunto de características arquitectónicas profundamente influentes após a Segunda Guerra Mundial. A sensação é a de um salão monumental, em parte pelo palco com cena à italiana, embora o auditório possa acolher uma versatilidade de produções desde dança, música, teatro, ópera, cinema e conferências. O revestimento é distinto e delicado, com uma cobertura a pedra calcária e acabamento “rústico gastejado”; uma pedra idêntica à outrora utilizada no Mosteiro dos Jerónimos e em toda a Lisboa setecentista. Monserrat Caballé foi quem inaugurou o célebre salão. Maria Stock relembra, ao Observador, a esmagadora afluência registada no concerto, levando os espectadores, com e sem convite, a ocuparem toda a área disponível, do foyer ao espaço exterior. Desde então, o auditório, capaz de albergar cerca de 1400 lugares, recebe regularmente a Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Finalmente, não se faria justiça às salas clássicas sem uma menção à Sala Suggia na Casa da Música no Porto. De traços contemporâneos concebidos pelo holandês Rem Koolhaas, o edifício foi inaugurado a 15 de Abril de 2005, embora a sala Suggia tenha sido estreada no dia anterior pelos Clã e pelo músico e compositor americano Lou Reed. Guilhermina Suggia, violoncelista de renome na primeira metade do séc. XX, é homenageada através deste auditório de 1200 lugares; o único auditório no mundo onde é possível a leitura de partituras por meio de luz exclusivamente natural. Este feito deve-se à arquitectura das sete janelas em interligação com o exterior, ou outros espaços, abastecendo a sala de claridade de vários ângulos.

A decoração, não menos admirável, remete a períodos da história da música ocidental e das artes decorativas por meio de talhas douradas ou do órgão de tubos, elementos estes conjugados com outros modernos. O auditório, de feições arrojadas, também se destaca pelos materiais de revestimento. Desde o pinho nórdico ao vidro curvo, todos se unem em simbiose de modo a obter uma clareza sonora reconhecida internacionalmente. À semelhança das restantes instituições, também esta possui uma orquestra integrada, a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, residente desde 2006.

Porém, As propostas não se esgotam nestas salas, havendo espaços igualmente ilustres que realizam pontualmente  concertos de música clássica, como a Academia de Ciências de Lisboa, o Picadeiro Museu dos Coches, ou a Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. Independente do lugar, o importante é não perder a chance de contemplar um auditório com história enquanto assiste a um divinal concerto.

A Turbilhão é uma revista semestral, especializada na área da Alta Relojoaria e do Luxo.