A palavra ícone é frequentemente usada com demasiada leviandade para descrever alguns relógios. Não no caso do Tank da Cartier, uma das poucas criações que foi capaz de seguir, e até mesmo anteceder, as evoluções mais significativas do espírito do tempo, marcando em 1917 o arranque de uma nova forma de conceber o relógio de pulso, o relógio do futuro.

Em “La Montre Tank, Icône du temps”, o autor Franco Cologni não hesita em afirmar que “um ícone não é apenas um objecto destinado a ser contemplado, mas também uma criação que, mesmo em mutação constante e realizada por mãos diferentes, sabe sempre conservar a sua profunda singularidade como objecto incontornável. O que não significa que se refugia na mudança, assumindo antes a assimilação de uma identidade cada vez mais forte, seja qual for a moda do momento“.

Luis Cartier amava os relógios, mas antes de tudo era um homem da joalharia. Para ele, a estética e o estilo mereciam sempre primazia sobre a função, razão porque, em Dezembro de 1916, e com apenas quatro traços, idealiza as linhas que viriam a dar forma à caixa do Tank como hoje o conhecemos.

O desenho terá sido sugerido pelas ilustrações de uma reportagem sobre o conflito que então envolvia as nações da Europa, e que Cartier descobrira nas páginas da edição do semanário L´Illustration, do dia 2 de Dezembro. Um sábado, que marcava duas semanas sobre a terrível batalha do Somme, e onde o Tank, então ainda uma arma secreta, era revelada aos franceses.

No entanto, este não foi, verdadeiramente, um momento de eureka para Louis Cartier. A forma do relógio agora traçada pela sua mão, num simples esquisso, correspondia perfeitamente ao seu gosto por linhas depuradas, mas marcava também o culminar de uma pesquisa estética em torno do relógio que o esteta iniciara há mais de 10 anos.

Reza a lenda, que, logo após a vitoria dos aliados em 1918, Cartier ofereceu um exemplar do Tank ao General John Pershing, o comandante das forças expedicionárias Norte Americanas na Europa. Lenda ou realidade? Nada resta nos arquivos históricos da Cartier que o possa provar. Mas a história que envolve o General torna-o no primeiro de uma extensa lista de personalidades associadas ao Tank. A longa procissão de celebridades que se seguiram inclui nomes como Rudolf Valentino, o Maharaja de Patiala, Duke Ellington, Cary Grant, Clark Gable, Gary Cooper, Truman Capote, Mohamed Ali, Yves Montand, Alain Delon, Jaqueline Bisset, Ingrid Bergman, Yves Saint Laurent, Andy Warhol, Warren Beatty, Catherine Deneuve ou Madonna.

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Carlos escreve como freelancer para diversas publicações nacionais e internacionais sobre o tema que sempre o fascinou, a alta-relojoaria. Uma área que considera ser uma porta para um mundo muito mais vasto, multidisciplinar e abrangente - uma fonte de informação cientifica, histórica e social quase inesgotável sobre quem somos e como aqui chegamos.