A beleza da precisão, aliada à precisão da beleza. Ou os milagres da  micromecânica escondidos no interior de pulseiras, colares, pendentes, anéis… relógios de segredo, pavées de diamantes, cravações em padrões coloridos, todo um mundo do relógio-jóia, onde os saberes se fundem.

Pierre-Augustin Caron (1732-1799) é mais conhecido pelo apelido que passou a usar na parte final da vida, quando casou, saiu de Paris, e foi viver para Beaumarchais, tomando o nome da cidade como seu. E também por ter escrito os libretos O Barbeiro de Sevilha ou As Bodas de Fígaro. Mas, filho de relojoeiro, também ele o foi. Frequentou a corte de Luís XV, fez relógios para o rei. E para a favorita do monarca, Madame de Pompadour. Um deles, um relógio embutido num anel, “o mais pequeno que até agora fiz”, diz nas suas memórias. “Para tornar o anel mais cómodo, imaginei, em vez da chave, um círculo em redor do mostrador, com uma pequena saliência; ao empurrar essa saliência com a unha até aproximadamente dois terços do mostrador, dá-se corda ao relógio, que fica com autonomia para 30 horas”.

 

Este é apenas um exemplo da relação perene da relojoaria com a ourivesaria e a joalharia. A utilização de metais e pedras preciosas em relógios – eles mesmos objectos raros, caros, luxuosos e acessíveis a poucos – vem desde os primórdios da relojoaria de uso pessoal, por volta de 1500, quando a mola helicoidal permitiu uma nova força motriz para os maquinismos, até aí dependentes da gravidade e de pesos pendurados por cordas. Os chamados Ovos de Nuremberga, com caixas e mostradores muito trabalhados, nas versões de mesa ou de pendurar ao pescoço, incluem desde cedo decorações com pedras preciosas.

 

Como tivemos ocasião de recordar em artigo anterior, a ligação da relojoaria à joalharia tem também raízes na religião. Vítima das perseguições aos huguenotes na França, João Calvino fugiu para Genebra em 1536, onde faleceu em 1564. As suas pragmáticas contra o luxo, enquanto governava a cidade com mão de ferro, induziam a vestuário sóbrio, escuro, e à proibição de artigos ostentatórios como as jóias. Para contornar essas limitações, os artífices passaram a produzir relógios ricamente ornamentados, autênticas jóias, onde a função de medição do tempo era apenas o pretexto para o uso de objectos demonstrativos do estatuto social.

Passam a estar na moda relógios de segredo – de senhora, e onde o mostrador está escondido, apenas aparecendo, a pedido, num anel, numa pulseira, numa chatelaine. Para a sua produção, são convocados os joalheiros mais hábeis, capazes de cravações pavée e de outras técnicas que escondem por completo a base das peças.

“A EXPANSÃO PORTUGUESA CONTRIBUIU PARA O USO MAIS GENERALIZADO DE JOALHARIA EM RELOJOARIA”

Um factor que contribuiu para o uso cada vez mais generalizado da joalharia em relojoaria foi a Expansão Portuguesa, em África, mas sobretudo no Brasil. Originários deste país, inundando a Europa, a partir de Lisboa, passaram a estar disponíveis diamantes e “pedras novas”, designação de gemas até então desconhecidas do continente.

 

David de Purry, um suíço, natural de Neuchâtel, instala-se em Lisboa em 1736, e funda um banco. Mas o seu principal objectivo é o comércio de extracção e venda de diamantes brasileiros. Os diamantes no Brasil são descobertos em 1725, mas a Coroa esconde o achado por alguns anos, e faz da exploração um monopólio estatal. Em 1735, esse monopólio passa a ser concessionado a particulares, e de Purry, com boas relações em Londres, onde a maior parte das pedras preciosas mundiais se transaccionam, acha que tem aqui grande oportunidade de negócio. Amigo do Marquês de Pombal, de Purry consegue ter o monopólio dos diamantes do Brasil entre 1750 e 1752, fazendo igualmente comércio de madeiras preciosas da Amazónia. O terramoto de 1755 apanha-o de visita a Londres, mas a sua fortuna fica reduzida – três quartos dos seus bens são destruídos.

 

 

Profundamente comprometido também no comércio de escravos, recupera e, em 1762, torna-se banqueiro da Coroa, a quem concede dois empréstimos volumosos. Morre na capital portuguesa, em 1786. Durante os 50 anos que viveu em Lisboa, David de Purry foi sempre um dos homens mais ricos de Portugal.

Grandes casas joalheiras, como Cartier, Boucheron, Chaumet, Harry Winston, Tiffany ou Van Cleef & Arpels, sempre procuraram parcerias com as melhores casas relojoeiras, que lhes fornecem maquinismos de grande qualidade. Também manufacturas relojoeiras tradicionais, como Breguet, Vacheron Constantin, Audemars Piguet ou Piaget têm tradição no relógio-jóia.

 

O rubi na relojoaria

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Fernando Correia de Oliveira (Lisboa, 1954), é jornalista e investigador do Tempo. Licenciado em Direito, esteve 20 anos como quadro da Agência Noticiosa Portuguesa, saindo como Director-Adjunto de Informação para ser o primeiro correspondente da Lusa em Pequim, onde viveu entre 1988 e 1990. Ingressou no PÚBLICO, onde foi Editor de Sociedade e especialista em Política Internacional na zona da Ásia-Pacífico (China, Japão, Coreia) entre 1993 e 2002. Desde esse ano é jornalista freelance, especializado em Tempo e Relojoaria, uma das suas paixões de sempre. Editor-Chefe do Anuário Relógios & Canetas, nas suas edições em papel e online, mantém o blog Estação Cronográfica (o mais importante do seu género em língua portuguesa, com mais de 40 mil visitas mensais). Colabora com muitos outros títulos especializados da área da Relojoaria, em Portugal, Espanha, Brasil, México ou Coreia do Sul. Membro de várias organizações internacionais dedicadas ao estudo do Tempo e de vários júris estrangeiros envolvidos na escolha dos Relógios do Ano, é consultor do Governo Português na área do Património Relojoeiro. Tem um vasto conjunto de obras publicadas sobre a temática – nomeadamente História do Tempo em Portugal ou Dicionário de Relojoaria.

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