“Há quem utilize o Speedmaster para fazer ovos cozidos. Outros usam-no para cronometrar um passeio sobre a lua.”

A frase faz parte de um anúncio da Omega publicado em 1969, o ano em que Neil Armstrong proferiu as famosas palavras “Um pequeno passo para o Homem, um salto gigantesco para a Humanidade.” O relógio, a que a publicidade fazia referência, tinha-se tornado uma verdadeira celebridade que, ainda hoje, 47 anos depois, lhe garante um reconhecimento imediato e um estatuto de culto entre apreciadores e coleccionadores de relógios. Quando questionados, a resposta é unanime, uma colecção não está completa sem pelo menos um exemplar!

Concebido inicialmente para engenheiros e pessoas ligadas ao mundo do desporto automóvel, de onde provém a inspiração para a sua designação, o Speedmaster da Omega acabou de forma inesperada por fazer parte da maior aventura da humanidade. O texto de introdução de “Moonwatch Only” de Grégoir Rossier e Anthony Marquié, uma recente obra de referência dedicada exclusivamente ao Omega Speedmaster nas variantes que foram certificadas pela NASA, é categórico: “Ninguém poderia prever o destino notável do primeiro cronógrafo com uma escala taquimétrica sobre a luneta que a Omega lançou em 1957”.

Submetido aos mais duros testes a que alguma vez um relógio mecânico foi sujeito, o Speedmaster foi ao espaço, andou sobre a Lua, tornou-se num dos heróis da Apollo 13, teve a honra de receber o Silver Snoopy Award e chegou aos nossos dias envolto numa aura a que apenas poucos medidores do tempo podem ambicionar. O Speedmaster é definitivamente um caso à parte na história da relojoaria.

 

A Origem

Criado segundo o conceito de Pierre Moinat, director criativo da Omega em 1957, a ideia original definia um cronógrafo robusto, à prova de água e que permitisse uma leitura fácil e precisa. A caixa seria desenhada por Claude Baillot, um dos principais designers da Omega, tendo o primeiro protótipo sido construído pelas mãos de Georges Hartmann. Lançado nesse mesmo ano, o Speedmaster integrava a linha “Professional”, uma colecção na qual a Omega contava com os Seamaster 300 e os Railmaster. Uma trilogia composta por modelos com referências famosas como os CK2915, CK2913 e CK2914. Originalmente, a intenção da marca de Bienne era a de integrar o modelo na colecção Seamaster, uma decisão que nunca chegou a ser tomada, mas que é a razão pela qual a Omega manteve o cavalo-marinho como símbolo na tampa da caixa.

O “Speed”, de Speedmaster, tinha sido escolhido devido à presença da escala taquimétrica no exterior em vez de estar impressa directamente sobre o mostrador, como era hábito nesta época. Neste campo o Speedmaster era uma estreia absoluta, o primeiro cronógrafo a fazer esta escolha em todo o mundo. Quanto à designação “Master”, o termo revelava a orientação profissional do modelo, com o Seamaster dedicados ao mundo do mergulho assim como as propriedades antimagnéticas do Railmaster o tornavam apetecível a engenheiros. O Speedmaster tinha sido apresentado como um cronógrafo claramente orientado para as corridas e o desporto, complementando o posicionamento da Omega como “Timekeeper” oficial dos Jogos Olímpicos.

 

Pre Moon – 1957 a 1969

A estreia deu-se em 1957 com o CK2915, provavelmente o troféu mais ambicionado em qualquer colecção dedicada ao Speedmaster. Um modelo que hoje, se se encontrar em bom estado, é capaz de alcançar um valor acima dos 40.000 euros num leilão da especialidade. Nesta altura o Speedmaster era considerado um relógio relativamente grande num mundo onde abundavam exemplares em ouro, pequenos e de aparência clássica. O modelo inaugural era também conhecido por “Broad Arrow”, fazendo alusão à forma e às dimensões do ponteiro das horas, largo e em forma de seta, e que então estava também presente nos Seamaster e Railmaster.

No interior, o calibre 321 era um desenvolvimento do famoso CHRO C12 desenhado originalmente por Albert Piguet, e que fora introduzido em 1942 numa parceria entre a Omega e a Lemania (cal 2310). Um movimento bastante fiável usado então também por marcas como a Vacheron Constantin e a Breguet. O CK2915 seria apenas produzido durante dois anos, até 1959, altura em foi substituído pelo CK2998 que apresentava algumas melhorias técnicas e estéticas ao conceito original. Foi este o Speedmaster que foi ao espaço com Ed White, um modelo histórico que acabou por ser homenageado em 2012 com uma reedição intitulada “FOIS – First Omega In Space”.

Segue-se em 1962 a ref. 105.002, e no ano seguinte a ref. 105.003, ambas com um design similar mas apresentando pela primeira vez ponteiros em “baton” e uma luneta de diâmetros diferenciados com 38,6 e 39,7 mm, respectivamente. Os modelos estavam disponíveis com escalas de taquímetro, pulsómetro e telémetro com variantes para milhas e mesmo escala decimal, para uso industrial. O 105.003 seria o modelo usado nos exigentes testes da NASA. Descontinuado em 1966, viria a ser substituído pela ref. 145.003.

Historicamente a versão mais importante terá sido a ref. ST 105.012, o modelo que em 1969 foi à Lua com Neil Armstrong e Buzz Aldrin a bordo da Apollo 11, sendo também o modelo que melhor ilustra a transição entre as versões vintage e modernas do Speedmaster. O relógio apresentava então um caixa redesenhada, com 42 mm de diâmetro, e uma resistência à água melhorada através de uma protecção adicional dos botões do cronógrafo e da coroa. A partir daqui sucederam-se modelos com caixas com formatos distintos como o Mark II, em 1969, seguido do Mark III, IV e V, para além de um número significativo de edições comemorativas que acompanharam a produção contínua do Speedmaster clássico tal como hoje o conhecemos.

 

NASA

Segundo o astronauta Eugene Cernan, o último homem a pisar solo lunar com a Apollo 17, “O Speedmaster Professional foi, virtualmente, o único equipamento de missão da NASA que se manteve inalterado ao longo de todo o programa Apollo.” Um testemunho de excelência a que poucas marcas podem ambicionar. Este capítulo essencial na história do Speedmaster começa em 1960, quando a NASA procurava activamente relógios fiáveis que pudessem ser candidatos ao programa espacial cujo objectivo era pôr um homem na lua.

Durante os testes que decorreram ao longo de dois dias, os relógios foram submetidos a temperaturas entre 71 e 93ºC, após o que eram arrefecidos de forma repentina para -18ºC. Seguiam então para uma câmara de vácuo aquecida a uma temperatura de 93ºC, seguindo-se uma nova bateria de testes onde eram aquecidos a 70ºCs e arrefecidos instantaneamente para -18ºC. Um processo que era repetido por 15 vezes. Caso os relógios se mantivessem inalterados e a funcionar correctamente, seguia-se um teste de impacto com uma força de 40G aplicada a partir de seis direcções distintas. Adicionalmente tinham de suportar uma humidade de 93%, uma atmosfera altamente corrosiva de 100% de oxigénio, assim como um teste sonoro de 130 decibéis. Finalmente um teste de vibrações com uma duração de 90 minutos onde os relógios sofriam um impulso de pelo menos 8G.

Como esperado, nem todos os relógios sobreviveram a esta tortura. Na sua carta datada de 1 de Março de 1965, o director assistente para as operações das equipas de voo reportava que apenas o Omega Speedmaster, apesar de algumas ligeiras irregularidades, tinha tido um desempenho satisfatório. E a partir de Março de 1965, o Omega Speedmaster recebia finalmente a certificação de “flight qualified by NASA for all manned space missions” (qualificado pela NASA para todas as missões espaciais tripuladas). O único que tinha sido capaz de passar nos mais exigentes testes a que alguma vez um relógio mecânico tinha sido submetido.

O resto é história. O Speedmaster saiu para um passeio espacial com Ed White a 3 de Junho de 1965 durante 20 minutos, levando a que, após a divulgação das imagens, a Omega acrescentasse a inscrição “Professional” sobre o mostrador. Finalmente, a 21 de Julho de 1969, o homem pisava pela primeira vez a Lua, e, também pela primeira vez, um relógio era usada na superfície de um corpo celeste que não a Terra. Não no braço de Neil Armstrong, que tinha deixado o seu Speedmaster no módulo lunar, mas no de Buzz Aldrin, que seguiu Armstrong ao fim de apenas 15 minutos. Nesse mesmo ano o Speedmaster recebia algumas alterações. O movimento Lemania 321 dava agora lugar à superior frequência do Calibre 861 (Lemania 1873) que passava de 18.000 para 21.600 aph, mantendo a corda manual agora com uma autonomia ampliada para 38 horas.

Durante a Apolo 13, é o Speedmaster que permite cronometrar com precisão a ignição do propulsor de forma a fazer regressar à Terra em segurança os astronautas a bordo da missão acidentada. Sem aquela queima controlada, cronometrada pelo Speedmaster, a capsula teria saltado na atmosfera terrestre e desaparecido para sempre na vastidão do espaço. O feito valeu ao Speedmaster o “Silver Snoppy Award”, uma honra atribuída pela NASA apenas a trabalhadores e empresas contratadas por serviços excepcionais prestados e relacionados com a segurança e o êxito das missões. Um prémio devidamente comemorado pela Omega duas vezes através de edições especiais do Speedmaster.

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Carlos escreve como freelancer para diversas publicações nacionais e internacionais sobre o tema que sempre o fascinou, a alta-relojoaria. Uma área que considera ser uma porta para um mundo muito mais vasto, multidisciplinar e abrangente - uma fonte de informação cientifica, histórica e social quase inesgotável sobre quem somos e como aqui chegamos.