Alberto Santos Dumont, o “sportsman” altruísta que escreveu algumas das mais belas páginas da história da aviação, foi um verdadeiro pioneiro da aeronáutica. Passados mais de 100 anos do histórico voo do 14-bis, o Santos, criado por Louis Cartier, recorda que ainda hoje se discute a quem cabe a primazia do primeiro voo motorizado.

Às vezes a história é demasiado injusta, privilegiando uma visão dos acontecimentos em detrimento de outra. A versão dos vencidos pouco importa aos vencedores, acabando quase sempre por ser escrita por cima do relato que devia vigorar, passando depois de geração em geração como verdade absoluta.

Dificilmente o nome de Santos Dumont poderá deixar de ser visto como uma vitima desta forma de registar a história, resumindo-se hoje a pouco mais do que a magnifica criação de Louis Cartier. Mas se perguntarmos a quem cabe a primazia de ter voado num aparelho motorizado mais pesado do que ar, poucos hesitarão em pronunciar o nome dos irmãos Wright, mesmo estando este titulo sob disputa há mais de um século. Talvez se recuarmos até ao sedutor período da Belle Époque, quando Dumont era o herói de Paris e da Europa, a história nos ajude a formular uma opinião.

No inicio do século XIX, quando Napoleão ameaçava a Europa e decide invadir Portugal, o príncipe regente, Dom João VI, decide mudar-se com toda a corte para o Rio de Janeiro, fazendo-se acompanhar por uma elite de 10.000 conterrâneos. Entre estes, viajava um cirurgião de nome Joaquim José dos Santos, o avô materno de Alberto Santos Dumont. Já no Brasil, e com a morte em 1816 de D. Maria I, Dom João decide encorajar a vinda de mais imigrantes. Entre os milhares que responderam ao apelo, encontrava-se o joalheiro Parisiense, François Honoré Dumont, o avô paterno de Alberto.

Os pais de Santos Dumont, o engenheiro Henrique Dumont e Francisca de Paula Santos, eram no último quartel do século XIX os proprietários de uma das maiores plantações de café do Brasil, cuja parafernália de máquinas representavam uma paixão para o jovem Dumont. Ao mesmo tempo crescia o seu fascínio por autores como Julio Verne e aventureiros como Etienne Montgolfier e as suas máquinas voadoras. Alberto acreditava que o tempo dos balões de ar quente já pertencia ao passado, e que o futuro pertencia aos dirigíveis.

Baladeuse

 

Em Dezembro de 1903, já estabelecido em Paris há 11 anos depois de o pai ter vendido a plantação de café, Dumont organiza uma recepção no seu apartamento da Champs-Elysés. Entre os convidados estavam personalidades como Louis Cartier, a Princesa Isabel do Brasil, a Imperatriz Eugénia, mulher de Napoleão III, Gustav Eifel e membros da família Rotschild, em cujo jardim Dumont se despenhara durante a sua ascensão inaugural num aerostato. Quando se anunciou o jantar, todos ficaram surpreendidos por terem de subir escadas para se sentarem em cadeiras bastante altas que rodeavam mesas igualmente elevadas. Tratava-se de um dos famosos “jantares aéreos” de Santos Dumont, que se destinavam a dar aos convidados uma ideia do que seria a vida a bordo de uma máquina voadora.

 

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Carlos escreve como freelancer para diversas publicações nacionais e internacionais sobre o tema que sempre o fascinou, a alta-relojoaria. Uma área que considera ser uma porta para um mundo muito mais vasto, multidisciplinar e abrangente - uma fonte de informação cientifica, histórica e social quase inesgotável sobre quem somos e como aqui chegamos.

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