A sustentabilidade é o tema do momento nos mais variados sectores sociais, políticos e económicos. A relojoaria não é excepção. Descubra neste artigo o quão comprometida está a indústria relojoeira com a responsabilidade ética e ecológica.

Um relógio de pulso mecânico de qualidade é, intrinsecamente, um produto sustentável. Afinal, a longevidade é uma das virtudes primordiais da relojoaria tradicional, que nunca teve em mente o consumo rápido, mas sempre procurou alcançar uma qualidade duradoura que, idealmente, duraria por gerações. Uma rápida vista de olhos nos catálogos das grandes casas de leilão revela os longos ciclos de vida que os relógios de luxo podem reivindicar bem como, muitas vezes, um sólido retorno sobre o investimento.

No entanto, esta qualidade intrínseca da alta relojoaria não é manifestamente suficiente para podermos considerar que esta indústria está literalmente “no sector verde”. Basta pensarmos nas questões relacionadas com os abusos ecológicos e humanitários na industria de mineração de ouro ou nas pegadas ecológicas deixadas pelo trabalho diário da indústria relojoeira. Mas, numa época de crescente demanda por produtos justos e ecologicamente responsáveis, o sector relojoeiro está atento e várias têm sido as marcas a incluir as preocupações ambientais, sociais e sustentáveis nas suas políticas.

 

Padrões Sustentáveis

A maioria das pessoas não sabe que a extracção de matérias-primas de alta qualidade, como o ouro e os diamantes, pode ser muito prejudicial para o meio ambiente. As indústrias de relógios e jóias usam cerca de 50 por cento do ouro mundial e 67 por cento dos seus diamantes brutos recém-extraídos. Como tal, na relojoaria, os esforços em sustentabilidade deram os primeiros passos com a criação, em 2005, do Responsible Jewellery Council (RJC), cujo objectivo é o de estabelecer padrões responsáveis para toda a cadeia de fornecimento de metais e pedras preciosas, ou seja, desde a extracção da matéria-prima, passando pelo seu processamento, até ao comércio da mercadoria. Condições de trabalho justas e outros aspectos éticos fazem parte destes padrões tanto como uma acção ecologicamente responsável.

Uma série de marcas de relógios recebeu a certificação do RJC nos últimos anos. IWC, Cartier e A. Lange & Söhne são apenas algumas das grandes marcas que estão comprometidas em cumprir o “Código de Práticas” do RJC. De notar ainda que, de acordo com um estudo conduzido pelo WWF, na Suíça, todo o grupo Richemont, que inclui ainda Piaget e Vacheron Constantin, está na pole position da produção sustentável e da compra de recursos adquiridos de forma justa. A fundição de ouro do Grupo Swatch também foi certificada pelo RJC e pode monitorizar as condições éticas que acompanham o consumo total de ouro do Grupo Swatch.

A certificação RJC é, sem dúvida, uma boa base para uma cultura corporativa sustentável. Mas há quem tenha ido um pouco mais longe. É o caso da Chopard que, em 2013, lançou a “Jornada de Luxo Sustentável”. Em colaboração com a empresa de consultoria Eco-Age, a Chopard tomou uma série de iniciativas para agir de acordo com padrões que são eticamente justos para os trabalhadores e ecologicamente responsáveis com o meio ambiente, especialmente no campo da extracção de ouro e pedras preciosas.

A Bulgari também tem dado passos importantes no rastreamento digital dos seus materiais, trabalhando em conjunto com a plataforma Aura – desenvolvida pelo Grupo LVMH – para utilizar a tecnologia “blockchain” (armazenamento de informações digitais à prova de violação) para rastrear a cadeia de fornecimento dos materiais utilizados.

É quase impossível ser 100% sustentável. Como mostra a IWC no recente relatório de sustentabilidade, escolher alvos realistas é fundamental para possuir um roteiro de acção rastreável e mensurável ao longo de ciclos de dois anos. Impacto socio ambiental positivo é um compromisso de longo prazo, que começa com o projecto para manter os recursos em utilização por mais tempo e reduzir o desperdício, criando cadeias de fornecimento transparentes, garantindo práticas trabalhistas éticas e diversidade no ambiente de trabalho.

Quando se trata de sustentabilidade no mundo relojoeiro, a procedência das matérias-primas é um factor central. Outro aspecto crucial é o impacto ecológico do trabalho diário na produção de relógios. A IWC desempenha um papel importante na consciencialização sobre o clima. Com sede em Schaffhausen, Suíça, a IWC usa energia eléctrica de fontes 100% renováveis. Além disso, incorporou muitos recursos de arquitectura contemporânea com eficiência climática à sua nova manufactura, inaugurada em 2018.

A IWC demonstra, aliás, um forte compromisso com práticas sustentáveis, o que lhe valeu vários prémios ao longo da última década. Em 2018, tornou-se a primeira empresa suíça de relógios de luxo a produzir um relatório de sustentabilidade de acordo com os padrões da Global Reporting Initiative. Além disso, a IWC usa ouro reciclado sempre que possível e fontes de uma refinaria movida a energia renovável.

A marca de Schaffhausen não está sozinha no seu compromisso ético e ambiental. Por exemplo, o Grupo Richemont, do qual a IWC faz parte, desenvolveu o “Richemont Green Handbook”, que declara que os princípios da Richemont incluem o compromisso de garantir as origens responsáveis das matérias-primas e o cumprimento das medidas de protecção ambiental.

 

Protecção dos Oceanos

Existem muitas formas de trabalhar em nome do nosso planeta. Há vários anos, diversas marcas para as quais os relógios de mergulho desempenham um papel importante têm-se comprometido com a protecção dos oceanos. A Blancpain, por exemplo, lançou a iniciativa Blancpain Ocean Commitment, na qual a empresa patrocina organizações dedicadas à pesquisa e protecção dos oceanos, como as expedições Pristine Seas, o projecto Gombessa, de Laurent Ballesta, a Iniciativa Mundial do Oceano, organizada pelo The Economist, e o Dia Mundial dos Oceanos, comemorado todos os anos na sede das Nações Unidas, em Nova York. Até ao momento, as 19 expedições levaram a resultados tangíveis, contribuindo notavelmente para duplicar a superfície de 11 áreas marinhas protegidas em todo o mundo, com um acréscimo de mais de 4 milhões de quilómetros quadrados.

Além de fornecer suporte financeiro para essas organizações, a Blancpain lança regularmente edições limitadas Fifty Fathoms, cuja parte da receita de venda é doada a iniciativas de conservação marinha. Exemplo disso é o Bathyscaphe Mokarran, dedicado ao estudo do tubarão-martelo na Polinésia Francesa, com uma percentagem das vendas direccionada para as contribuições regulares da marca para promover, respeitar e proteger o mundo dos oceanos.

O projecto Planet Ocean da Omega segue um caminho semelhante e visa principalmente aumentar a consciência pública sobre a condição dos oceanos, através do apoio a projectos de conservação, incluindo documentários premiados feitos em parceria com a Fundação GoodPlanet e o seu fundador, Yann Arthus-Bertrand, e o trabalho vital de Nekton, uma fundação de pesquisa sem fins lucrativos que trabalha em colaboração com a Universidade de Oxford na protecção e gestão dos oceanos do mundo.

Já a Breitling, com o apoio do seu “Surfers Squad”, liderado pelo campeão mundial de surf, Kelly Slater, possui uma parceria com a Ocean Conservancy, uma organização dedicada a manter oceanos saudáveis e praias limpas em mais de 150 países.

 

Materiais recicláveis

A utilização de materiais reciclados na relojoaria é de grande importância neste momento, aumentando a consciencialização e passando uma mensagem clara de que não há área da vida ou parte da sociedade que possa ignorar a urgência de proteger o meio ambiente. Na edição deste ano do Watches & Wonders, um dos painéis diários foi dedicado à responsabilidade social corporativa. Um dos oradores foi o explorador Mike Horn, que alertou para o lamentável estado do meio ambiente. Desmatamento, desertificação, derretimento do gelo… onde quer que as explorações o tenham levado nos últimos vinte anos, incluindo as regiões polares, as consequências da actividade humana mostram-se de formas cada vez mais dramáticas. Horn aproveitou a oportunidade para falar sobre o “enorme papel que a indústria tem que desempenhar para tornar o mundo um lugar melhor”, acrescentando: “não gosto do termo responsabilidade social. Prefiro investimento social. Precisamos de acção real por parte das empresas e precisamos disso agora.”

A mensagem de Mike Horn não foi ignorada pela parceira Panerai. Orador do mesmo painel, o CEO Jean-Marc Pontroué explicou como, “há três anos, Mike veio ver-nos com um pedaço de eixo de transmissão do seu barco e desafiou-nos a transformá-lo num relógio. Não só tivemos sucesso na produção de um relógio 40% reciclado, mas começámos a procurar um modelo de negócio sustentável, perguntando-nos por que não seria possível produzir relógios inteiramente com componentes reciclados?”.

A pergunta já tem resposta na forma de um Submersible e-Lab-ID, com 98,6% do peso proveniente de materiais reciclados, desde o titânio para a caixa, mostrador e pontes até ao silício para o escape, ou mesmo o revestimento SuperLumiNova dos ponteiros e índices. Juntando-se a esta edição limitada de 30 peças está ainda um Luminor Marina eSteel, onde 58,4% do peso é composto por aço reciclado.

A Panerai não está sozinha nesta viagem, à medida que cada vez mais marcas incorporam materiais reciclados nos seus relógios, começando com braceletes. É o caso da Cartier que, além de fornecer o novo Tank Must com uma pulseira produzida a partir de plantas, ainda o equipou com um movimento movido a energia solar. Tudo isto sem alterar a aparência do relógio, graças às perfurações invisíveis nos algarismos romanos. O movimento SolarBeat ™ levou dois anos a ser desenvolvido e possui uma vida útil de 16 anos.

Também a Breitling se comprometeu a aumentar os seus esforços para a protecção ambiental. Para tal, através da parceria com a Outerknown, propriedade da lenda do surf Kelly Slater, a marca equipa o Superocean Héritage II Cronógrafo 44 Outerknown com uma pulseira fabricada com um fio chamado Econyl, feito a partir de resíduos de nylon, como o das redes de pesca abandonadas. Este material possui a mesma qualidade do nylon comum feito de petróleo bruto, mas é 100% feito de resíduos e, portanto, reduz o impacto deste material no aquecimento global em até 80%.

 

Pre-Owned

Outra história de sucesso do desenvolvimento sustentável na indústria relojoeira é o mercado Pre-Owned. Vender e comprar relógios vintage evita a produção de novos itens e, portanto, não tem um impacto negativo adicional sobre o meio ambiente, tornando um relógio vintage uma excelente compra sustentável.

Várias são as marcas que disponibilizam este serviço. Em Portugal, destacamos a Boutique dos Relógios Plus que recentemente apostou neste mercado, disponibilizando lounges inteiramente dedicados a este negócio nas suas lojas da Avenida da Liberdade (n.º 194), em Lisboa, e dos Aliados, no Porto.

Vacheron Constantin Calendário Perpétuo Pre-Owned, modelo de 2008, entregue com estojo e documentos originais, disponível na Boutique dos Relógios Plus

O mercado Pre-Owned permite uma extensão significativa da vida útil de um relógio. Ao oferecer relógios usados certificados que passaram por manutenção e foram restaurados à condição quase original, as empresas podem reduzir ainda mais o volume de produção e o consumo de energia e impacto ambiental associados. Em termos gerais, este é o conceito subjacente à economia circular – eliminar o desperdício reutilizando continuamente os mesmos recursos. É uma das razões pelas quais o mercado de relógios usados de luxo aumentou de interesse nos últimos anos. A construção robusta, os componentes que podem ser reparados e substituídos e o uso de materiais duradouros significam que muitos relógios de luxo durarão mais do que os seus proprietários.

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